Resumo: O objetivo deste artigo é contribuir para a superação do déficit de conhecimento nacional nas ciências sociais e humanas sobre o fenômeno da invenção no campo científico. Trata-se de responder à questão de como se concebe uma idéia científica nova através da análise das obras de autores canônicos do Século XX das áreas da medicina, da psicologia, da matemática, da filosofia, da física e da divulgação científica. Na primeira parte, analisamos autores que compartilham de uma visão sócio-histórica sobre a singularidade do indivíduo/descobridor e sua relação com a problemática e desafios de seu tempo. Para esses autores a conclusão é de que a grandeza de uma obra deve ser procurada na grandeza da personalidade daquele que a constituiu. A psicologia singular do descobridor se estende à estrutura psicológica idêntica de uma comunidade de pensamento, da qual ela é a representante. Na segunda parte, os autores reunidos chegam à conclusão de que a descoberta ocorre no momento em que a idéia nova surge, sob a forma de uma iluminação. A iluminação é o fruto de uma inspiração individual, espontânea e involuntária, mas misteriosa. Concluímos o artigo qualificando todas as abordagens analisadas de modelo difusionista posto que estão alicerçadas na divisão entre o momento em que se elabora o novo e aquele em que o novo será admitido e reconhecido por todos. São abordagens que promovem uma concepção mentalista da criação, concepção oposta àquela desenvolvida pelos Social Studies of Science.
Palavras-chave:
Ato criador, Descoberta científica, Invenção, Modelos psicológicos,
Sociologia da ciência.
Abstract:
Abstract. The objective of this article is to contribute to
overcome the lack of national knowledge at social and human sciences about
the invention phenomena in the scientific arena. It is about to answer the
question of how it is conceived a new scientific idea through the analysis
of the work of 21th century canonic authors in the fields of medicine,
psychology, mathematics, philosophy, physics and scientific divulgation. In
the first part, we will analyze authors that share a socio-historical vision
about singularity of individual/discoverer and its relation with the
problematic and challenges of its time. To these authors, the conclusion is
that the magnitude of the work must be to explore the magnitude of the
personality of the one who constituted it. The singular psychology of the
discoverer extends to the identical psychological structure of a thinking
community, of whom it is the representative. In the second part, the authors
jointly come to the conclusion that the discovery occurs in the moment that
a new idea appears, as an illumination. The illumination is the result of an
individual, spontaneous and involuntary inspiration, but also mysterious. We
conclude the article qualifying all approaches of the difusionist model
analyzed given that are based in the division between the moments that it
create the new, and the one where the new is admitted and recognized by all.
These are approaches that promote a mentalist conception of creation, which
is opposed to the one developed by the Social Studies of Science.
Keywords:
Creative act, Scientific discovery, Invention, Psychological models,
Sociology of science.
Introdução
Durante as duas últimas décadas do século XX, que poderia ser chamado, sem
exagero, de século das turbulências, a questão da invenção científica passou
a ocupar as preocupações do meio acadêmico europeu e anglo-saxônico. À
imagem das próprias ciências, que se prestam a múltiplos usos e definições,
em função das tradições histórico-culturais de cada país, as abordagens
adotadas são as mais diversas.
Numa recente revisão da literatura sobre as diferentes maneiras de se estudar a questão da invenção científica ao longo do Século XX, Machado e Teixeira (2007) mostraram, num primeiro momento, como sua definição foi construída em negativo com relação à definição da natureza do conhecimento científico. Inicialmente, a filosofia fixou como objetivo caracterizar a ciência, mas ignorou a questão da invenção.
Ora, a validade das teorias científicas é garantida pela pureza e pela racionalidade de sua origem (a ciência é inscrita na natureza do conhecimento racional, e a novidade, isto é, a introdução por um ato de pensamento de alguma coisa ainda não presente, é impensável), ora, a dinâmica da ciência é pensável, mas uma ruptura é instaurada entre o “contexto de descoberta” e o “contexto de justificação”. O contexto de descoberta, impuro, é então colocado fora do campo da racionalidade científica e, por isso mesmo, fora de toda explicação racional.
A invenção, como processo intelectual, é assimilada à imaginação, aos fantasmas e aos prejulgamentos. Irracional e misteriosa, ela é, contudo, o motor da mudança, mas deve ser apagada para que a ciência ocorra. A validade não tem mais nada a ver com a origem. A resposta para a questão de saber se “os filósofos das ciências têm necessidade de compreender como Darwin fez sua teoria para poder compreender sua teoria” é negativa. Não obstante, esta epistemologia dá à invenção um caráter de acontecimento singular, até mesmo heróico. Um ato fundador rompe com as normas estabelecidas e funda novamente a ciência, mas ela permanece um mistério.
Dando continuidade àquele processo de revisão da literatura, visando
contribuir para a superação do déficit de conhecimento nacional sobre o
fenômeno da invenção no campo científico, trata-se de responder aqui a
questão de como se concebe uma idéia científica nova. A pertinência do tema
justifica-se quando constatamos a quase inexistência de estudos dedicados ao
entendimento desse fenômeno nas ciências sociais e humanas brasileiras,
realidade expressa na lista de temas de eventos científicos, bianuais, como,
por exemplo, os Congressos da Sociedade Brasileira de Sociologia, os
Seminários da Sociedade Brasileira de História da Ciência, as Reuniões da
Associação Brasileira de Antropologia, a mais antiga das associações
científicas existentes no país na área das Ciências Sociais, bem como das
Jornadas Latino-Americanas de Estudos Sociais das Ciências e das
Tecnologias, cujo sétimo encontro se realizou recentemente, na cidade do Rio
de Janeiro.
Ampliaremos, então, nossas análises e abordaremos aqui os modelos
relacionados a um conjunto de autores que se perguntam sobre como nascem as
idéias novas, essas idéias situadas na origem do conhecimento. Trata-se de
estudos sobre a psicologia dos inventores que abordam seu imaginário, sua
concepção metafísica e religiosa, seu inconsciente psicanalítico, a formação
de seu espírito, seu inconsciente heurístico e seu psiquismo arquétipo.
Inicialmente, na primeira parte, analisaremos as abordagens sócio-históricas
que tentam dar conta, ao mesmo tempo, da singularidade da invenção – isto é,
por quê este indivíduo inventa ao em vez daquele outro – e sua relação com a
problemática e desafios de seu tempo. "Eu me pergunto, às vezes, como é
possível que eu tenha sido o único a desenvolver a teoria da relatividade?"
A pergunta de Einstein, citada por Thuillier (1988, p.
368), parece estar no centro da problemática das obras a serem aqui
estudadas.
Partindo de resultados estabelecidos e dos relatos dos inventores, os
autores procuram compreender como Einstein [1879-1955], Kepler [1571-1630],
Niels Bohr [1885-1962], Enrico Fermi [1901-1954] e Sigmund Freud [1856-1939]
chegaram às suas descobertas. Contra a epistemologia positivista dominante
até a primeira metade do Século XX, esses estudos têm em comum o fato de o
desenvolvimento das teorias científicas estarem constitutivamente ligadas a
um conjunto de concepções metafísicas, religiosas, filosóficas e
psicológicas que servem de pano de fundo aos cientistas. Assim, a
problemática centrada na psicologia individual do cientista e de seu
imaginário (Thuillier, 1988; Holton
1981) se estende para o contexto sócio-político que os alimenta (Feuer,
1978) e uma outra perspectiva se desenha, a interpretação psicanalítica do
psiquismo dos criadores (Anzieu, 1981).
Finalmente, na segunda parte do artigo, serão analisados os pontos de vista
de alguns autores dos campos da medicina, da psicologia, da matemática, da
filosofia, da física e da divulgação científica que se tornaram autores
canônicos durante o Século XX. Trata-se, de responder à questão de como se
concebe uma idéia científica nova analisando autores ligados à perspectiva
teórica dominante na primeira metade do Século XX, perspectiva que ficou
mais centrada nos mecanismos da inteligência, abandonando a problemática do
conhecimento.
Ou seja, deixaremos de lado a questão da singularidade do indivíduo/descobridor, analisada na primeira parte, para focar a análise sobre o ato criador. Veremos como a explicação centrada na dinâmica interna da ciência, pontuada de idéias novas (Claude Bernard), pende para a análise das formas de espíritos mais propícias, favoráveis à invenção científica (Poincaré, Hadamard, Duhem) e, depois, se estende para o mecanismo intelectual que está na origem da iluminação. Esse mecanismo poderá ser entendido como um funcionamento específico do pensamento, sendo aplicado a domínios tão vastos como a arte ou o humorismo (Koestler), tornando-se um processo comum (Claparède, Polya).
As abordagens socio-históricas sobre a
singularidade da invenção
Sondando a imaginação dos inventores
Como explicar a singularidade de um gesto inovador? Pode-se encontrar no
centro do imaginário da descoberta a origem da teoria que traz o seu nome? A
mensagem de Holton (1981) é clara: a criação científica é
também obra da imaginação. Descobrimos nela as opções pessoais do
pesquisador, sua intuição experimental e teórica. Encontramos uma
problemática semelhante em Thuillier (1988).
O objetivo desses autores é de “salvar” o papel da subjetividade agindo nas ciências. A dualidade contexto de descoberta/contexto de justificação é deslocada, mas, ainda assim, permanece presente. É no contexto de descoberta que o leitor é convidado a ir contra uma ciência pública que trata somente de justificação: a construção indutiva/dedutiva do empirismo racionalista. Assim, na concepção de Holton, todo produto da atividade científica é considerado como um “acontecimento”. Este acontecimento só tem existência porque se constitui no ponto de interseção de uma tripla trajetória: a da atividade científica do indivíduo, que revela determinações íntimas privadas em duelo com a trajetória científica pública, a dos movimentos ideológicos e das considerações sociais de seu tempo. Em resumo, só existe pensamento científico na singularidade de um homem, de um tempo e, sobretudo, na relação com as condições sociais.
Qual é o método empregado? Para localizar o momento da gênese da obra,
Holton examina atentamente os relatos dos cientistas e os
documentos de primeira mão (correspondências, entrevistas, cadernos de
nota), procurando descrever a ambiência da época, os conhecimentos
científicos e extra-científicos dos cientistas e determinar em que medida a
imaginação do cientista é governada por quais convicções implícitas ou
explícitas. Enfim, ele estuda as conseqüências da descoberta para as
sociedades. A dificuldade é apreender esta singularidade através dos
princípios explicativos gerais.
A perspectiva de Holton é ao mesmo tempo histórica e dinâmica. Holton
revela assim, na obra dos cientistas que conduziram a um sobressalto do
conhecimento (Kepler, Bohr, Einstein e Fermi), o aspecto fundamental da
adesão a algumas "tématas" globalizantes, tendo como fundo a imaginação
científica, tématas que se constituem numa das fontes primordiais do elã
inovador e em torno das quais se organizam as perspectivas teóricas.
Nesse sentido, na origem da descoberta de Kepler ("o movimento orbital dos
planetas não é um círculo, mas uma elipse, onde um dos centros é o sol"),
encontra-se forte presunção metafísica, sua grande fé religiosa (ele está
atormentado com emoções místicas), as influências do neoplatonismo,
reservando ao sol e às matemáticas, um lugar singular, bem como o decorrente
desejo de harmonia. Assim, nos diz Holton (1981 p.73),
“numa única imagem radiante, Kepler via coincidir suas três tématas
fundamentais: o universo como máquina física, o universo como harmonia
matemática, o universo como ordem teológica, regida em seu centro”
Em sua descoberta do princípio de complementaridade, em 1927, Bohr dá conta,
novamente, do princípio da imaginação científica. Na origem da hipótese
nova, duas teorias, dadas como incompatíveis (a do eletromagnetismo ou
teoria ondulatória, e a do efeito fotoelétrico ou hipótese corpuscular da
luz), serão apresentadas como complementares. Holton, então, propõe três
concepções fortes como pano de fundo desta descoberta: a influência sobre
Bohr do modelo do pensamento chinês (o Ying e o Yang), assim como da
filosofia de Sören Kierkegaard [1813-1855] e de um conto dinamarquês.
Contrariamente a Bohr, Einstein é profundamente marcado pelo desejo de
unificação. Holton atualiza o spinozismo como “matriz” de um modelo
Einsteiniano : “Um sentimento religioso cósmico”, este é o pano de fundo da
teoria da relatividade. Einstein faz sua a fórmula de Baruch Spinoza
[1632-1677] de que é preciso ter o amor intelectual de Deus. Uma dupla
inspiração subentende esta concepção, a causalidade universal: o mundo é
inteligível e racional, as leis harmoniosas o governam e ele é regido pela
estrita causalidade. Segundo Holton, tématas se manifestaram já na infância.
Uma inspiração é soprada ao cientista desde a idade de 12 anos. Pela consciência, o indivíduo deseja testar o universo como uma unidade tendo uma significação: ele existe independente de nós, e sua contemplação tem uma ação libertadora. Daí o princípio da relatividade, que remete às suas idéias pessoais, uma vez que esse princípio traduz a vontade de encontrar uma imagem do mundo que seja independente da situação dos diversos observadores, um mundo supra-pessoal que, para Thuillier (1988), é o núcleo subjetivo das teorias relativistas.
Uma necessidade de encontrar uma ordem harmoniosa no universo inspirado pela religião cósmica torna-se um critério para elaborar suas concepções teóricas, a simplicidade e a austeridade parecem governar suas escolhas. “Ela exige que se explique o maior número possível de fenômenos da forma mais elegantemente possível, isto é, com a ajuda do menor número possível de enunciados fundamentais" (Thuillier, 1988, p. 367). Assim, o primado da explicação formal, a causalidade, a unidade, a escala cósmica são tématas que governaram a elaboração teórica além do emprego ordenado de processos inconscientes.
A análise temática do discurso científico a que se entrega
Holton (1981) é, pois, numa certa medida, comparável às concepções
preconcebidas do antropólogo ou do especialista das tradições populares à
escuta das narrativas de epopéias para deslindar as estruturas e as
regularidades temáticas subjacentes. As tématas se caracterizam por sua
antiguidade, seu papel desconhecido e, mesmo inconsciente, nas mentalidades
e, enfim, sua extrema raridade. Elas têm uma tripla função. Permitem, ao
mesmo tempo, explicar as intuições, as orientações que governam as escolhas
dos cientistas, mas, de igual modo, sua resistência a novos elementos,
quando defendem modelos de interpretação diferentes e tentam salvaguardar os
princípios intocáveis: "O apego que os físicos tais como Lorentz, Poincaré e
Abraham sentiam pela velha imagem eletromagnética do mundo e seu incômodo
face à teoria da relatividade antecipada por Einstein, se compreende mais
facilmente desde que se considere o éter como a concretização de conceitos
temáticos (o do absoluto e do plano, por exemplo)” (Holton , p. 29).
As controvérsias remetem, com freqüência, a duplas ou tríades de tématas
autênticas, fazendo intervir oposições como, por exemplo, atomismo/contínuo,
simplicidade/complexo, análise/síntese, invariante/evolução/catastrofismo. A
investigação dos conceitos, primeiro limitados a umas cinqüenta duplas e
tríades, instruem tanto a ciência quanto a percepção que temos dela: "A
busca de respostas que se entrega a história das ciências é o traço natural
de tématas, do mesmo modo que a busca de uma teoria unitária das partículas
elementares" (Holton , p.46) é suficiente para explicar a variedade das
grandes descobertas da ciência.
A estrutura temática põe em destaque uma certa continuidade, uma certa
homogeneidade sob “as revoluções” através da persistência de um número
limitado de estruturas imutáveis : “Seria possível que esta resistência ao
tempo, tématas relativamente pouco numerosas, bem como sua difusão num dado
momento no seio da comunidade, assegure à ciência, apesar dos
desenvolvimentos e as mutações que ela conhece, a permanência de identidade
que ela preserva em uma certa medida". Holton acrescenta: "A retomada
interdisciplinar de tématas iguais, em diversos domínios da ciência, é um
indicador para nós, da mesma forma que a significação do empreendimento em
seu conjunto, do caráter de fundo comum que deve desempenhar o imaginário" (Holton,
1981,p. 30).
Existe, claro, um fundo comum do imaginário, mas não existem dois
pesquisadores que apresentem exatamente o mesmo conjunto de tématas, e nem,
sobretudo, o conjunto dos tématas. É o cientista, como indivíduo, que é
depositário e detentor dessas globalidades, ainda que estas se encontrem
variadas em todos os membros da comunidade. A maior parte dos tématas
utilizados pelos cientistas remonta a intuições ontológicas ou metafísicas
muito antigas. Elas já preexistem no “dado cultural”, reaparecendo na
singularidade de um homem em luta com sua própria história. Nesse sentido,
pode-se dizer que a origem dos tématas está presente no espírito do
cientista para responder a uma interrogação existencial inscrita no centro
da subjetividade de todo homem.
Não se pode confundir, como enfatiza Holton a análise temática com os
arquétipos jungianos (Jung, 2000, p. 69-70, 83-84) ou com os paradigmas de
Kuhn (1962). De um lado, porque ao longo da ciência normal, subsistem
oposições temáticas onde encontramos, longe da idéia de incomensurabilidade
das teorias, tématas de um extremo ao outro das épocas revolucionárias. De
outro, contrariamente à visão difundida pelo paradigma, as opções temáticas
derivam muito mais do indivíduo que do meio social ou da comunidade.
Esta explicação da singularidade de um tempo, de um homem e sua descoberta
se constrói rompendo com as concepções positivistas que edificam o
conhecimento em torno das démarches lógicas e da observação. A subjetividade
organiza o saber.Holton, e Thuillier, nesse ponto, estão de acordo sobre as
características psicológicas singulares dos descobridores. A maneira
original de combinar suas idéias explica por que Einstein descobre a
relatividade ao invés de Poincaré, do mesmo modo que a evolução tardia de
Einstein lhe permitiu colocar questões numa idade em que não deveria mais
fazê-lo. É porque Einstein foi capaz de se perguntar sobre os pressupostos
implícitos do espaço e do tempo, que todo indivíduo, normalmente
constituído, os integrou e aceitou, sem colocar em questão a base dessas
interpretações a respeito da realidade. Thuillier (1988), então, conclui
afirmando que a recusa em falar de Einstein exprime uma resistência a certos
esquemas cognitivos colocados pela sociedade.
O contexto sócio-político nas revoluções
Feuer (1978), por sua vez, investiga a natureza das descobertas. Ele tenta
compreender o que incitou o jovem Einstein a procurar esse ou aquele tipo de
explicação científica. Contudo, ele se distancia do gênero de explicação
anterior:
"O que procuramos não são as causas determinantes não-lógicas do modo de pensamento de Einstein, mas procuramos precisamente suas causas determinantes extra-lógicas ou sócio-lógicas” (...). “Não se trata de forma alguma de negar a importância dos traços de características distintivas. O caráter único de um indivíduo se mantém quando ele resiste ao determinismo sociológico" (ibid.Holton , p.111).
A problemática centrada na psicologia e seu imaginário se amplia para o contexto que as alimenta. Não se compreende Einstein e a relatividade se não se conhece o papel fundamental de Zurique no começo do Século XX: velha cidade, anti-militarista, democrática, terra de exílio e guardiã do direito de asilo, situada na fronteira da Alemanha com a Rússia, torna-se um lugar cultural de grande relevância cultural, de onde emergirá a tripla revolução, surrealista, marxista e científica, com traços de relativismo. Correspondendo a um estado coletivo de ceticismo, na realidade, se encontra esse relativismo no interior dos lares de emigrantes russos, nas personalidades marcantes e influentes como Ernest Mach e Friedrich Adler, em torno dos quais se reúnem indivíduos de todo tipo, e, enfim, na criação da Academia Olympia, lugar fundamental de trocas afetivas e intelectuais para Einstein. O socialismo é dominante. Na ligação com Viena, o desenvolvimento das idéias psicanalíticas assume forma, toma corpo.
O objetivo de Feuer é pesquisar uma ligação causal específica entre um ponto
de vista político-filosófico, num círculo cultural dado, e uma realização em
teoria física. Ele desenvolve a tese de uma sociedade agenciada em
contra-cultura, segundo as determinações de uma mesma linha iso-emocional
que uniria, de algum modo, revolução social e revolução científica.
Abandonando a singularidade de uma psicologia, ele tenta apreender a
estrutura psicológica idêntica de uma comunidade de pensamento. O apego de
Einstein ao termo relatividade poderia, então, constituir o indício da
revolta da nova geração contra os mais velhos. "Cada geração nova traz
intuições e descobertas científicas na busca de um novo postulado que lhe
seja próprio, definindo em termos filosóficos o caráter específico de sua
afetividade.
O que os homens de ciência não param de procurar quando discutem filosofia são idéias e imagens fecundas do mundo” (Feuer, op. cit., p. 315). Mas, contrariamente a uma revolução política, graças à uma plataforma comum caracterizando a comunidade científica, se abre um campo virtual de cooperação entre gerações. Sobre isso, Feuer propõe uma análise mais fina do que o paradigma kuhniano. A menos que este não corresponda mais explicitamente à noção de isomorfema, uma espécie de visão do mundo compartilhada por certos pesquisadores estaria na origem dos conflitos de escola. O suicídio de Ludwig Boltzmann [1844-1906] atesta o caráter afetivo unindo o pesquisador a seu modelo, bem como o "fanatismo metodológico das gerações", do qual Boltzmann foi vítima.
A relatividade nasce, pois, fora da comunidade científica. Os sobressaltos
que o saber conhece são o fruto de outsiders habituados com um espírito
revolucionário em união com o clima intelectual de uma época. A mensagem é
clara: seria preciso estender esse modelo reformista da ciência ao modelo
político. De todo modo, o que permeia o pano de fundo do livro é a
psicanálise, em que a palavra de ordem é: para criar, é preciso matar o pai.
Os estudos psicanalíticos dos criadores encontrarão aqui ressonância. Por
sua vez, Anzieu (1988) tentará explicar a descoberta da psicanálise por
Freud. Vemos em sua obra como o inconsciente heurístico está na construção
da descoberta do inconsciente psicanalítico. Correndo risco de formar uma
tautologia, o inconsciente psicanalítico está na construção de sua própria
descoberta. Nessa visão, encontra-se a idéia de um acontecimento, já
presente em potência, que a singularidade de um homem virá por no mundo: ele
sofre da descoberta que o curará.
Abordagens sobre o ato criador - O gênio da invenção
Para Claude Bernard (1984[1865]), a idéia constitui “o ponto de partida ou o
primum movens de todo raciocínio científico, e é ela igualmente o objetivo
na aspiração do espírito em direção ao desconhecido" (p.56). A ciência está
igualmente impregnada de idéias, instrumentos intelectuais os quais é
preciso mudar “como se troca de bisturi cego por ter sido usado por muito
tempo" (ibid., p. 74), em razão do fato de que "do mesmo modo que na marcha
natural do corpo o homem só pode avançar colocando um pé diante do outro, de
igual modo na marcha natural do espírito o homem só pode avançar pondo uma
idéia diante da outra" (Claude Bernard , p.79).
Também, o que permite a descoberta, o que ela é e oferece, é uma idéia : “... quando se qualifica um fato novo de descoberta não é o próprio fato que constitui a descoberta, mas a idéia nova que deriva dele" (Claude Bernard , p. 88). A idéia nova é uma idéia fecunda e luminosa. Como, então, nascem essas idéias e podemos criá-las à vontade ? Ao “como”, Claude Bernard responde, “por acaso”, na seqüência de observação, ou “de outra maneira”, porque o método não é produtor de idéia nova; isso seria contrário à liberdade inventiva. O método experimental não se parece em nada ao método cartesiano, cuja aplicação permite a emergência de idéias “que não poderiam ser concebidas de outra maneira".
Na realidade, "não existem regras a serem dadas para fazer nascer no cérebro, a propósito de uma dada observação, uma idéia justa e fecunda que seja para o experimentador uma espécie de antecipação intuitiva do espírito em direção a uma pesquisa bem sucedida. A idéia, uma vez emitida, pode somente dizer como se pode submetê-la a preceitos definidos e regras lógicas precisas, dos quais nenhum experimentador poderá se afastar, mas sua aparição foi, com freqüência, espontânea, e sua natureza é totalmente individual. É um sentimento particular, um quid proprium, que constitui a originalidade, a invenção ou o gênio de cada um" (Claude Bernard , p.66). Um bom método pode aumentar o caráter distintivo que forma a natureza própria da invenção. A descoberta é também imprevista porque se trata de “uma idéia nova inesperada que o espírito vê entre as coisas" (Claude Bernard, p.66). A novidade é entendia em termos de diferencial. Ela nasce do caráter distintivo que forma a natureza própria da invenção. A intuição e o sentimento estão na fonte de idéias fecundas. Somente a liberdade pode encorajá-las.
Existe, segundo essa concepção, uma tipologia do descobridor? Para Claude
Bernard os descobridores são raros. Pode-se dizer que ele invoca modelos
“hierarquizados” da invenção e preconiza uma constância no espírito
científico, mas salva sempre a singularidade do indivíduo, ou do gesto
inovador. Isso, porque se a igualdade entre as inteligências permite
apreender as relações simples entre os objetos, as relações sutis só podem
ser sentidas por espíritos mais dotados ou situados num contexto intelectual
favorável. Se novos fatos trazem idéias novas para espíritos situados num
mesmo contexto, existem, porém, fatos que são luminosos somente para alguns.
Enfim, no nível individual, “acontece (...) que um fato permanece por muito
tempo diante dos olhos de um cientista sem lhe trazer nenhuma inspiração e,
de repente, num lampejo de luz, o espírito interpreta o mesmo fato de outro
modo que anteriormente, encontrando relações inteiramente novas. A idéia
nova aparece, então, com a rapidez de um clarão, como uma espécie de
revelação súbita, o que prova, nesse caso, que a descoberta reside num
sentimento das coisas que é não somente pessoal, mas relativo ao estado
atual no qual se encontra o espírito" (Claude Bernard , p.67). Contudo, o
crescimento da ciência permanece linear e cumulativa: "cada grande homem
pertence a seu tempo e só pode vir no seu momento, no sentido de que há uma
sucessão subordinada no aparecimento das descobertas científicas" (Claude Bernard, p.75).
Vemos aqui que a invenção, definida como capacidade de engendrar idéias
novas, é fundamental. A idéia nova é o motor e o objetivo da descoberta. A
intuição é o ponto de partida de toda criação. Ela é individual e impregnada
de sentimento. Claude Bernard nota o caráter espontâneo e desenvolto da
inspiração. Ele pende, como havíamos visto, para o lado de um dom ou de uma
sensibilidade inata, de uma inteligência perspicaz, que o meio intelectual e
o método (favorecendo a liberdade) tornaram operante. Singular, a idéia nova
permanece, contudo, não explicada, porque, segundo ele, do mesmo modo que um
artista não nunca sabe como ele chegará às coisas, o cientista não sabe como
ele achará as coisas. Diante desta limitação, Poincaré vai
mais longe que Claude Bernard, porque investiga as atitudes do espírito
propícias à invenção, dando um status, uma função à idéia nova e propondo um
esquema explicativo do processo inventivo.
A valorização do papel da intuição, da linguagem e do inconsciente
heurístico
Para Poincaré (1970[1908]), os fatos são igualmente
construídos pelo quadro conceitual que lhes dá sentido. O que o cientista
cria num fato é a linguagem com a qual ele o enuncia. E a objetividade
provém dessa linguagem comum a vários espíritos. O que permite a comunicação
é fonte de objetividade. Assim, Poincaré se posiciona em
relação à filosofia anti-intelectualista que rejeita o discurso porque
deforma os fatos. Mas, ele rejeita igualmente o nominalismo que quer que as
regras instituídas pelos cientistas sejam arbitrárias. A ciência é uma regra
de ação que obtém êxito: "(...) é uma classificação, uma maneira de
aproximar fatos que as aparências separam, mas que estão ligados por algum
parentesco natural escondido. A ciência, em outros termos, é um sistema de
relações e é somente nas relações que a objetividade deve ser procurada. A
ciência não nos faz conhecer a verdadeira natureza das coisas, mas as
verdadeiras relações das coisas de onde resulta a harmonia escondida" (Poincaré,
p.181).
A questão das hipóteses como linguagem encontra diretamente o problema da
invenção já que, diz ele, “basta mudar de linguagem para perceber
generalizações que não se tinha inicialmente suspeitado" (Poincaré,1970[1908
p.108). Por exemplo, a lei de Newton e a elipse. O encontro da matemática e
da física, nesse sentido, é fonte de fecundidade. A primeira fornece uma
linguagem para a segunda, e a ajuda a encontrar analogias para enunciar uma
lei. A matemática permite nomear com o mesmo nome seres que diferem pela
matéria. A física dá ao matemático a ocasião de resolver problemas e o
impede de afastar-se, dando-lhe os meios para fazê-lo, fazendo pressentir a
solução (as imagens físicas podem ajudar) e sugerindo raciocínios. Mas, a
questão da démarche inventiva pura é abordada diretamente numa invenção
matemática. É aí que intervém a intuição.
Encontramos aqui uma dualidade, já presente em Claude Bernard, entre
intuição e lógica, o duplo movimento da ciência. Poincaré explicita a sua
natureza distinguindo duas formas de espírito: o espírito de análise e o
espírito de geometria. O primeiro é dotado da qualidade do raciocínio lógico
e o segundo da démarche intuitiva. Reconhecendo a necessidade de ambas,
Poincaré faz da intuição o instrumento da invenção e, da lógica o da
demonstração. Mas, uma vez que existem vários tipos de intuição, a análise
às vezes inventa, quando é dotada da intuição do número puro, a única,
segundo Poincaré, que não pode nos enganar, um tipo de intuição intelectual
que permite alcançar as analogias escondidas. Os geômetras se apóiam sobre
intuições sensíveis que recorrem aos sentidos e à imaginação. O tipo de
espírito não depende da matéria e nem da educação. Nascemos analistas ou
geômetras. Os dois tipos de espírito são necessários ao progresso da
ciência. O mesmo princípio de resto os anima. É criador somente aquele que
possui a intuição, a faculdade de ver o conjunto e de abraçar a unidade do
raciocínio.
Na célebre conferência de 1908, intitulada “Ciência e método”, é explicado o
papel central da intuição na invenção matemática. Esta explicação tem por
vocação inspirar os psicólogos. E o que é interessante para o psicólogo não
é o teorema, mas as circunstâncias. Ora, o que há de tão singular na
invenção? É, de um lado, o fato de que este ato do espírito humano parece
agir sobre ele próprio sem tomar nada emprestado do mundo exterior. Mas, é
também o fato de que poucos indivíduos inventam.
Poincaré distingue, em primeiro lugar, a compreensão e a invenção. Aquele
que compreende não pode sempre inventar, pois a invenção não consiste em
fazer novas combinações com os seres matemáticos já conhecidos. Inventar é
construir e escolher as combinações úteis que revelam novos parentescos
entre fatos que se acreditavam não familiares. Para isso é preciso possuir a
intuição da ordem matemática que faz adivinhar as harmonias e as relações
escondidas. Ora, a intuição é uma atitude distribuída com parcimônia. Esta
intuição se assemelha ao sentimento para Claude Bernard. Mas, como ela opera
na démarche inventiva? Poincaré nos convida a encontrar a universalidade da
démarche nos ofertando a intimidade criativa da intuição. É estudando a si
mesmo, de forma introspectiva, que o cientista relata seus processos
mentais. Sua narrativa se tornará canônica.
“Parece que em alguns casos”, diz ele, “é o ajudar a si mesmo em seu próprio
trabalho inconsciente que se tornou parcialmente perceptível à consciência
em estado de exaltação e que, por isso, não mudou de natureza. Nos damos
conta vagamente do que distingue os dois mecanismos ou, se preferirmos, os
métodos de trabalho dos dois eus" (Poincaré,
1970[1908] p. 66).
O fato excepcional emerge numa bela noite na qual, tomando café, o cientista não pode dormir e olha passivamente, como do exterior, a evolução de idéias subconscientes. Este inconsciente será portador da solução relativa, por exemplo, das Funções Fuschianas ou funções de automorfismo que Poincaré usou para resolver equações lineares diferenciais de segunda ordem com coeficientes algébricos. Estas funções automorfas são generalizações das funções trigonométricas e elípticas. Então, o esquema da invenção matemática proposto por ele é o seguinte: na seqüência de um longo trabalho consciente, durante um período de repouso, ocorre, de repente, a solução esclarecedora do problema, sob forma de iluminação, na seqüência da qual se engaja, desta vez, de maneira consciente, a verificação. Idéias se formariam, pois, no Eu subliminar, mas – e mais misterioso ainda – somente as combinações harmoniosas, isto é, ao mesmo tempo belas e úteis, chegariam à consciência, em razão de somente as combinações capazes de tocar a sensibilidade poderem passar pelo crivo estético e tornarem-se conscientes.
O matemático fala, então, “de beleza, de harmonia, de elegância” (Poincaré, 1970[1908] p. 60). Nesse sentido, os seres matemáticos suscetíveis de despertar uma emoção estética “são aqueles cujos elementos estão harmoniosamente dispostos, de maneira que o espírito possa, sem esforço, abraçar o conjunto, ao mesmo tempo em que penetra nos detalhes" (Poincaré, p. 60). A iluminação escapa ao controle: “no eu subliminar reina (...) o que eu chamarei a liberdade, se pudermos dar esse nome à simples ausência de disciplina e à desordem nascida do acaso, somente essa própria desordem permite acoplagens inusitadas, inesperadas" (Poincaré, 1970[1908] p. 65). Esta ausência de controle explica a sensação de experimentar de súbito o acontecimento da aparição da idéia nova.
Se Poincaré indica, sem verdadeiramente abordar, a questão das iluminações falsas, seu próprio testemunho é retomado, ilustrado por numerosas experiências similares como Hermann Ludwig Ferdinand von Helmholtz [1821-1894], Friedrich August Kekulé. [1829 – 1896], Constanze Weber Mozart [1762-1842], Charles Robert Richet [1850-1935], René Just Haüy [1743-1822], Charles Jules Henry Nicolle [1866-1936], William Thomson Kelvin [1824-1907], Albert Einstein [1879-1955], Louis Hector Berlioz [1803-1869], Samuel Taylor Coleridge [1772-1834] e Louis Pasteur [1922-1895]. Acrescentaremos também o testemunho de François Jacob na sua autobiografia, em 1987, a Statue intérieure. Esses testemunhos estão de acordo sobre o caráter incontrolável da iluminação, fruto de um inconsciente, do acaso ou da liberdade inventiva. Encontramos aqui uma teoria da inspiração. A idéia ocorre sem que o indivíduo intervenha. O que, às vezes, ele sente fisicamente vai ao encontro das experiências místicas. O cientista, quando tem uma iluminação, “tem lágrimas nos olhos” (Connes e Changeux, 1989), "um prazer confuso, um alegria intensa" (Jacob, 1987), sente “a possessão instantânea de si por um fato novo" (Nicolle, 1932).
Se os relatos de pequenos fatos curiosos que podem aclarar a psicologia dos
homens de ciência se multiplicam, desempenhando um papel mais de validação
do que de explicação, a iluminação permanece no centro de numerosas
reflexões. O esquema que propõe Poincaré, qual seja,
preparação/incubação/iluminação/verificação, envolvendo o papel de um
inconsciente “heurístico” (e não psicanalítico), é retomado em numerosos
trabalhos. Moles [1920-1992] (1975), Kaufmann, (1979) e
Hadamard (1975) são alguns exemplos. A seguir, retomaremos o ponto de
vista deste último autor por se tratar da apresentação dos resultados de uma
enquete realizada com numerosos cientistas para tentar descrever e
estabelecer regularidades no processo inventivo. Desse modo, ele abre outra
perspectiva sobre a invenção, aumentando a acuidade do conceito de
inconsciente.
O papel do inconsciente e das imagens
Para Hadamard (1975), a invenção matemática não é, senão
um caso da invenção em geral, um processo que ocorre em diversos domínios:
na ciência, na literatura, na arte ou na tecnologia. Para sustentar sua
investigação, Hadamard retoma a filosofia de Bergson ao
dotar a inteligência de um poder de invenção perpétuo e constante. Para ele,
o esforço de invenção que se manifesta em todos os domínios da vida pela
criação de espécies novas encontrou, na humanidade, somente o meio de
constituir, através de indivíduos, aos quais é devolvida com inteligência, a
faculdade de iniciativa, a independência e a liberdade.
De fato, para Hadamard, se a invenção é parte integrante do processo intelectual do indivíduo, é um movimento característico, mas também geral do espírito. Contudo, ele distingue a invenção artística por desfrutar de uma grande liberdade de invenção, enquanto o trabalho é da ordem das descobertas. Mas, a invenção do pára-raios por Benjamin Franklin, em 1752, e a descoberta da natureza elétrica do clarão mobilizam condições psicológicas idênticas.
A enquete realizada por Hadamard junto a diferentes matemáticos enfraqueceu
a teoria de Franz-Joseph Gall, de 1796, “da protuberância dos matemáticos"
situada no cérebro, que consiste na afirmação de que a forma externa do
crânio dos matemáticos reflete a forma interna de seus cérebros, permitindo
usá-las para diagnosticar faculdades mentais particulares de um dado
indivíduo e o papel do sonho matemático na descoberta. Os testemunhos
estudados convergem para a sensação de um clarão súbito, sensação de uma
criação espontânea e quase involuntária.
Essas iluminações freqüentes confirmam, para Hadamard, o papel do inconsciente e exclui a hipótese do acaso invocada por Nicolle (1932). Esta hipótese não é uma condição suficiente da descoberta: “que essas freqüentes iluminações, que se pode chamar de inspirações, não possam se produzir ao acaso seja um fato evidente, não pode existir dúvida sobre a intervenção necessária de um processo mental anterior desconhecido do inventor e, em outros termos, de um processo inconsciente (...), não se pode mais por sua existência em questão” (Hadamard, op. cit., p.29). De resto, não existem mais operações do espírito que não o impliquem: a escrita automática, reconhecer um rosto, a linguagem... Esses domínios correspondem a camadas sucessivas do inconsciente.
Na invenção matemática, o eu inconsciente não é puramente automático como em
Poincaré, ele é capaz de discernimento. O sentido dado à intuição difere
igualmente. Como diz Schlanger (1983), “em Poincaré, a intuição apreende a
unidade da démarche. O pensamento é intuitivo. Em Hadamard, é intuitiva a
maneira pela qual se dá a resposta, súbita e desconectada; é antes a
iluminação que é intuitiva" (p. 50). Esta distinção explica o estatuto
fundamental da linguagem para Poincaré e não para Hadamard, que valoriza o
papel das imagens na criação, que são formalizadas pela análise e pelo
raciocínio.
Para confirmar seu ponto de vista, Hadamard (p.82-83) se apóia sobre o que havia dito Einstein, quando perguntado sobre o mecanismo de seu pensamento: “as palavras e a linguagem, escrita ou falada, não parecem desempenhar o menor papel no mecanismo de meu pensamento. Essas entidades psíquicas que servem de elementos do pensamento são certos sinais ou imagens mais ou menos claras que podem ser reproduzidas e combinadas à vontade. Existe naturalmente uma certa relação entre esses elementos e os conceitos lógicos em jogo." O historiador da ciência Gerald Holton,(1982) dirá do jogo de espírito de Einstein que ele é de ordem iconográfica. Encontramos em Gaston Bachelard [1884-1962](1943) a importância devolvida às imagens na criação, mas também na obra de Hippolyte Adolphe Taine [1828-1893] (2005[1870]), consagrada ao papel das imagens na elaboração das idéias, de Frédéric Paulhan [1856-1931] (1901) e de Hans Selyé [1907-1982] (1973) que fazem da intuição o dom de fazer chegar até o consciente dos sonhos e das imagens utilizáveis.
Hadamard conclui seu estudo com um voto: "Nunca ocorrerá
que matemáticos com um bom conhecimento de fisiologia do cérebro e neurofisiologístas estejam a par da descoberta matemática para que uma
cooperação eficaz seja possível?" (Hadamard, p. 123). O encontro, em 1989, de
dois grandes cientistas, um matemático, Alain Connes, e um neurobiólogo,
Jean Pierre Changeux, em Matière à pensée, parece responder a essa
esperança.
O objetivo desse encontro é o de compreender o funcionamento do cérebro no trabalho matemático. O que é o pensamento? Como funciona o cérebro? Existe uma "realidade" matemática independente do cérebro pensante? Os computadores são capazes de pensar? Será uma autêntica inteligência artificial realizável a partir da matéria? Qual é a natureza dos objetos matemáticos? Estes existem independentemente do cérebro do homem que os descobre? Ou, pelo contrário, são simplesmente o produto da atividade cerebral que os constrói? Changeux abre o debate e retoma a posição de Poincaré (1970), de Hadamard (1975), de Binet (1920) e de Taine (2005[1870]), sublinhando ora a importância do emprego de sinais, ora das imagens mentais. Connes aprova o esquema de Poincaré, relata os aspectos afetivos e o papel do “pensar ao lado”, isto é, a possibilidade de ampliar o contexto para fazer aparecer uma variabilidade.
Changeux explica, então, a iluminação. Ela coincide com a entrada em ressonância das representações mentais entre si. Esta ressonância ocorre no córtex frontal que está ligado ao sistema límbico, acionado nos estados emocionais. O córtex frontal elabora estratégias cognitivas, mas, por intermédio das conexões entre o córtex frontal e o sistema límbico, ele é capaz de desenvolver estratégias emocionais. Nesta visão da invenção, a dimensão individual é totalmente ocultada.
Se a via de acesso está aberta para se sondar o inconsciente dos inventores,
a explicação dada permanece subjetiva e intimista. Mas, como veremos em
seguida, o escritor, ativista político e divulgador científico Arthur
Koestler (1965) nos oferece uma nova perspectiva. Ele retoma certos aspectos
abordados anteriormente e propõe um modelo pertinente para explicar o ato
criador, não somente na ciência, mas também na arte e no humorismo; ato
criador integrado num esquema psicológico e biológico do psiquismo em toda
sua extensão. O inconsciente é exterior à razão, mas a ultrapassa pelos
jogos clandestinos que ela autoriza. O irracional torna-se o motor explícito
da descoberta.
O ato bissociativo
A tese de Koestler (1965) repousa sobre um conceito inicial chamado de “ato bissociativo” que se aplica a três manifestações do psiquismo criativo: o
rir, a descoberta e a arte. O autor tenta validar seu modelo através de uma
miríade de exemplos mais ou menos históricos. O melhor modo de ilustrar sua
teoria é acompanhar o exemplo emblemático utilizado por ele. Na Grécia
clássica, o tirano de Siracusa havia recebido como presente uma coroa de
ouro, porém, como todos os tiranos, era um ser desconfiado e temia que
pudesse se tratar de uma mistura de ouro e prata. Delegou ao famoso
Arquimedes a responsabilidade de investigar se realmente era ouro puro ou
não.
Arquimedes conhecia o peso específico do ouro e da prata. Porém, este conhecimento não adiantava muito, enquanto desconhecesse o volume da coroa, o único que poderia indicar para ele se ela pesava o suficiente. Como poderia medir o volume de um objeto tão irregular? Era impossível. Contudo, era sempre perigoso desobedecer às ordens de um tirano. Se pudesse fundir a coroa e colocá-la num recipiente! Esta idéia lhe veio à mente e imaginava que espaço ela ocuparia no recipiente uma vez fundida. Absorvido em seus pensamentos, Arquimedes começou a entrar na sua banheira dando-se conta de que o nível da água da banheira aumentava à medida que introduzia seu corpo. Então exclamou, “Eureka!”, e saiu da água. Havia encontrado a solução: não era necessário fundir a coroa porque a água deslocada era igual ao volume do corpo submergido na banheira.
Na mente de Arquimedes, haviam se associado repentinamente duas idéias que até então não estavam conectadas, e esta associação havia se produzido a partir de um elemento comum: ele já sabia que o nível da água de sua banheira aumentava quando entrava nela, observou que não tinha aparentemente nada a ver com o peso específico do ouro e da prata, mas, de repente, em virtude de uma tarefa de difícil execução, ambas as idéias se associaram e uma se converteu na solução da outra. Koestler chama isso de um “ato bissociativo”. O princípio é o seguinte: o ato bissociativo põe em contato duas matrizes sem ligações anteriores.
Uma matriz é uma estrutura de atividade regida por um conjunto de regras chamado “códigos”. A intuição percebe uma situação “L” sobre dois planos de referência habitualmente incompatíveis. “L” é bissociado a dois contextos. O resultado da interface de duas matrizes independentes, se efetuada sob a forma de colisão, conduz ao rir, sob a forma de fusão, uma nova síntese intelectual, sob a forma de confrontação, a uma experiência estética. Em ciência, o ato de descoberta “tem um aspecto de disrupção e um aspecto de construção, é preciso que ele quebre as estruturas da organização mental a fim de agenciar uma síntese nova".
Alguns exemplos: Gutenberg [1398-1468] combina as técnicas da prensa e da autenticação, Kepler [1571-1630] une a física e a astronomia, Darwin [1809-1882] religa a evolução biológica e a luta pela vida. O princípio explicativo dá conta da singularidade do inventor, mas a integração não é uma simples adição. “É um processo de cruzamento e de interferência mútua, no curso do qual as duas matrizes são transformadas de diversas maneiras e em diversos graus .... Quando Einstein bissocia a energia e a matéria, uma e outra mudarão de aspecto" (Gutenberg, p. 215).
Mas em que nível esta bissociação, produtora de sínteses novas, é tornada
possível? Koestler não retém a definição de inconsciente de Poincaré por
considerá-la muito mecanicista. Ele vai em direção ao ponto de vista de
Hadamard sobre a utilização de processos inconscientes em diversas
profundidades. De um lado, esses processos ativos em vários níveis, durante
o período de incubação, preparam a inteligência para se lançar sobre chances
favoráveis ou, talvez, enquanto a consciência é inteiramente absorvida por
outra coisa que não o problema que ela procura resolver, o inconsciente
mantém esse último sempre presente.
Além disso, o inconsciente tem igualmente o poder de combinar formas de imaginação que somente o sonho e certos estados conexos parecem poder provar. "Seus códigos", diz Koestler, "funcionam clandestinamente porque regem um modo de pensamento que domina a infância e as sociedades primitivas e, no adulto normal, é suplantado por técnicas mais realistas" ( p. 191). Koestler fala "de camadas quase arqueológicas da hierarquia mental". É porque este período de incubação permite “recuar para melhor saltar". Em "pensando ao lado", o espírito pode sair do habitual e produzir o novo. Também, o habitual e a originalidade se constroem sobre a base de mecanismos opostos. A aprendizagem de uma técnica ou a resolução de um problema pode tornar-se um automatismo, uma rotina, que acabará por funcionar inconscientemente, liberando o inconsciente que poderá se consagrar a novos problemas que se tornarão, por sua vez, rotinas. É o princípio de economia intelectual. O ato criador contrário parece subir das profundezas, daí a diferença entre recitar um poema e o conceber em sonho. O problema novo, ao qual não se pode aplicar as regras habituais, ativa esses processos inconscientes.
Partindo da gramática e da lógica dos sonhos,
Koestler atualiza vários
procedimentos bissociativos oriundos do jogo sutil do inconsciente.
Retomemos aqui seus termos: o pensamento visual bissociado a dois contextos
funcionais permite evitar as armadilhas do pensamento verbal (Einstein); a
concretização de idéias abstratas em imagens particulares e as imagens como
símbolos de conceitos não formulados, a personificação e a dupla identidade:
somos nós mesmos e um outro ao mesmo tempo; os amálgamas de som e de
sentido, de forma e de função, as freadas da atenção: o deslocamento do
olhar em direção a um objeto não notado e o raciocínio retroativo em marcha
a ré, as instruções que encontram analogias nascendo em estágio embrionário.
São tantos os aspectos da psicologia do ato criador. O que é contraditório e
ilógico em estado de vigília torna-se a regra em estado de inconsciência. É
também uma maneira de ultrapassar as fronteiras entre a arte e a ciência. A
descoberta consiste em ter uma analogia que ninguém tinha percebido: “entre
a maçã de Newton e a de Cézanne, o parentesco é mais estreito que se possa
imaginar" (Koestler , p. 92).
Koestler explica, assim, certos repertórios da invenção. O que parece tão
simples, após ter se encontrado a solução, se explica pelo fato de que tudo
estava no ar, era familiar, mas não tinha ligação. A fusão de duas matrizes
é ao mesmo tempo original, mas é conhecida. Isso torna a descoberta evidente
tarde demais, mas não se pensa mais da mesma maneira. Koestler dá conta
igualmente de descobertas múltiplas sem verdadeiramente dar uma resposta.
Claro, a maturidade é necessária, mas ela não é suficiente, “é preciso ainda
a intuição de uma inteligência excepcional e, às vezes, um acaso favorável
para atualizar esta descoberta" (Koestler , p. 104). Além disso, certas
descobertas não são explicadas nem pela maturidade e nem pelo acaso. Assim,
Koestler responde a uma visão marxista de uma história que produz indivíduos
intercambiáveis: "Trata-se de saber como ele [o indivíduo] a realizará [a
descoberta], de explorar a natureza da originalidade criativa e não de
conceber o fato, inegável, mas banal, que ele não vivenciou um outro
[indivíduo]; num dado momento terá alcançado a mesma invenção porque terá
sempre que responder à questão de como este outro indivíduo terá feito" (Koestler
, p. 95).
Ele teria, sem dúvida, bissociado. Assim, o que se produz no nível individual se encontra aumentado pela lupa no nível da história das ciências. O esquema proposto se assemelha, aliás, ao modelo Kuhniano (1962): combinação de regras implícitas em resposta a problemas comuns. Resistência e bloqueio de matriz. Crise, reestruturação do problema e atualização a partir de uma nova perspectiva. Koestler conclui com algumas generalizações sobre as características intelectuais dos cientistas: a precocidade (eles fazem suas descobertas antes dos quarenta anos), e relembra o que se diz sobre as crianças prodígios ou, inversamente, sobre aqueles que se mostram medíocres na escola em disciplinas científicas nas quais farão, mais tarde, descobertas, o dualismo de um pensamento, ao mesmo tempo cético e crédulo, capaz de abstração e de espírito prático. Enfim, ele sublinha as potencialidades múltiplas do espírito criador que se aplica a diversas formas de atividade.
A riqueza desse modelo provém, sem dúvida, da descrição precisa das
operações “intelectuais” inconscientes combinadas na descoberta. Seu ponto
central é a definição da bissociação. Como o nome indica, não associa
matrizes, mas as qualifica novamente pelo jogo das operações que ela
combina. É num indivíduo que há troca entre duas problemáticas ou matérias e
ambas ficam modificadas. Mas, o estudo de Koestler é passível de crítica. A
descoberta, tal como ele nos descreve é efetiva no momento em que surgiu a
idéia nova. Como em Nicolle (1932), a descoberta é o ato e não o resultado.
O ato criativo coincide com um salto qualitativo do espírito que se
constitui como um pensamento de ruptura.
A explicação do mecanismo psicológico que ele nós dá, no princípio da emergência da idéia nova (a colisão de duas matrizes), basta para dar conta da pertinência desta idéia. Partindo de descobertas já obtidas ficamos sem compreender o que faz uma pessoa descobrir “aos olhos dos outros”. A recepção e a comunicação desta são totalmente ocultadas. Para retomar os termos de Schlanger (1983), “entre a experiência individual e o campo histórico, uma mudança de plano sem transição nos é dada. A visão histórica transmitida torna-se linear, cumulativa, pontuada de feições míticas: Nicolau Copérnico [1473-1543], Galileo Galilei [1564-1642], Isaac Newton [1642-1727], Albert Einstein [1879-1955]" (p.62). Os desafios do conhecimento são perdidos em proveito do pensamento criativo. Este se torna passível de estudo, independentemente do conteúdo ao qual ele se aplica.
Terminaremos a análise dos pontos de vista dos autores escolhidos para se
constituírem em material empírico desse artigo, abordando os estudos de
psicologia experimental que compartilham a crença na possibilidade de
alcançar diretamente, isto é, sem mediação, os processos intelectuais
operatórios na descoberta de uma hipótese. Nessa idéia de dominação, se
configura a idéia de influência possível sobre a capacidade criativa.
As démarches da inteligência
A obra de Claparède está explicitamente voltada para a descoberta da
hipótese e a questão do “Eureka” é um problema central para ele, como já o
era para Koestler. Contudo, o campo de investigação é descentrado.
Koestler
procurava um princípio único na origem da criação, quer fosse científica ou
artística. Este objetivo supunha, de um lado, a existência de domínios
específicos onde a criação se exerce, como a arte, a ciência e o humorismo,
e, de outro, que a novidade, no quadro da descoberta, esteja ligada à
reorganização do saber que engendra o ato criativo. Mas, essa é nossa
crítica, todo o peso da reflexão está centrado sobre o que permite a
novidade, “o estalo intuitivo", sem interrogar o quadro no qual ele opera: a
consistência de um campo de conhecimento.
Em Claparède (1933, 1934), a novidade encontra diretamente o problema da
inteligência independentemente do domínio no qual ela é aplicada. O que
entendemos por novidade? A aproximação que "eu" opero, por exemplo, entre
uma castanheira majestosa que observo nas ruas de uma cidade como o Rio de
Janeiro e um guarda-chuva; ou melhor, no quadro das experimentações que ele
organiza, uma hipótese que um sujeito achou e que ninguém havia ainda
vislumbrado. Enfim, um problema que a inteligência tem de se confrontar. Se
nós utilizamos a palavra “eu”, é para mostrar que o que é novo é o que é
novo para mim e não o que se tornará novo para o conhecimento.
A descoberta é entendida como o surgimento de uma hipótese no quadro da resolução de um problema. Sobre esse ponto, Claparède se aproximar da obra de George Polya [1887-1985] (1965 [1957]). As operações intelectuais são isoladas do mesmo modo que o conteúdo sobre o qual elas se aplicam: uma adivinhação, um enigma, uma história a ser completada. Os dados do problema constrangem a hipótese. O objetivo determina o método. Para poder analisar, classificar e medir é preciso circunscrever bem o que é esperado. Também, não há espaço para "distinguir as hipóteses segundo elas se voltem para um fato passado a ser encontrado ou para um fato novo a ser descoberto. (...) Do ponto de vista funcional, essas duas espécies de hipóteses são inteiramente equivalentes. É somente do ponto de vista dos mecanismos de pesquisa que se subtende que talvez [grifos nosso] terá que distinguí-los" (Claparède, 1934, p. 21).
A questão não é mais de saber como se é capaz de engendrar o novo, mas como a inteligência é capaz de dar uma resposta e como nasce a hipótese que é posta no bom caminho e encontra uma solução. Os exemplos utilizados por Koestler de “grandes descobridores” não são mais pertinentes. O que se torna apaixonante para Claparède é o trabalho da inteligência dos mortais comuns envolvidos com problemas mais ou menos abertos, para os quais se é conduzido a resolver na vida de todos os dias. A situação deve ser nova no sentido que ela não deve mobilizar o hábito ou a rotina, contrária a todo ato de inteligência, esta deve ser definida como a capacidade de resolver novos problemas através do pensamento.
Koestler se apóia sobre um material histórico, enquanto Claparède faz experimentações sobre indivíduos “bem vivos” que duvidam, hesitam e fazem conta em voz alta, para saber o que eles fazem quando resolvem um enigma. Seu objetivo é abordar o estudo detalhado do processo íntimo do pensamento criativo, apreender o próprio ato pelo qual a solução é efetuada, em que o espírito passa do ato da ignorância e de não adaptação ao estado de conhecimento e de readaptação.
Nesse sentido, ele estima ir mais longe que seus contemporâneos, isto é,
Paul Souriau [1852-1926](1881), Théodule Ribot [1839-1916](1900) e Frédéric
Paulhan [1856-1931](1901) que, segundo ele, se limitam a determinar os
fatores gerais da atividade criativa, seus modos e suas convicções
favoráveis. Seu objetivo é o de filmar o trabalho do espírito. Os sujeitos
devem narrar atos em vez de idéias. Um tal método se destaca da introspecção
comum (o que nos propunha Poincaré e
Hadamard) que não implica, pois, nem em desdobramento do sujeito e nem
em retrospecção.
O esquema de todo ato de inteligência se configura numa questão (a pesquisa
de uma hipótese por tentativa) e na verificação da hipótese que a faz
rejeitar quando há um erro.
A hipótese é definida como a tentativa provisória de reajustamento. Claparéde (1933) distingue três espécies de hipóteses: a hipótese-solução, a hipótese-método de verificação e a hipótese-método de solução, isto é, a pesquisa do método capaz de fornecer a solução. O que o interessa é tanto a hipótese intermediária, que põe o indivíduo no bom caminho, quanto a hipótese final, a descoberta da solução. Em resumo, a questão não se apóia mais sobre a hipótese genial. Mas, numa tal perspectiva, compreender e inventar não são mecanismos semelhantes? Ainda que para ele compreender e inventar sejam inseparáveis, Claparède os distingue. “É a respiração da inteligência”, diz ele. Também, os mesmos dados podem mobilizar, num certo sujeito, processos de compreensão e, em outro, processos de invenção.
O primeiro, parte de dados e procura a idéia ou a relação que os compreende. O segundo, parte de uma idéia e imagina uma história se harmonizando com ela. Também, na compreensão, o reajustamento se funde sobre imagens dadas (pela percepção ou pela palavra); na invenção ela se funde sobre imagens encontradas pela imaginação. Todavia, cada compreensão não consiste em um inventário como parece indicar a classificação de Claparède. Este autor se separa da filosofia de Henry Bérgson [1859–1941], colocando uma questão que este não responde por parecer absurda: “aquele que procura compreender o mecanismo de uma locomotiva ou de uma máquina de escrever está realizando um trabalho intelectual análogo àquele que inventou esses instrumentos?" (Claparède, 1934, p.79). Contudo, os dois processos intervêm, freqüentemente, juntos. “A invenção tem por função preencher pela imaginação os dados que faltam e permitir, assim, que a compreensão se complete" (Claparède, 1934, 1934, p.81).
Segundo Claparède, existem duas maneiras de descobrir a hipótese. No
primeiro caso, onde se assiste a passagem gradual da percepção imediata para
os modos mediados do conhecimento, a variedade é assim enunciada: percepção,
interpretação, julgamento, inferência, dedução e raciocínio. O espírito que
trabalha na solução de um problema é guiado por um certo número de idéias
diretoras, semelhantes ao esquema dinâmico ou ao esquema antecipador da
filosofia de Bergson. Trata-se de molduras preenchidas pelo espírito com
idéias e imagens. No entanto, há um certo número de casos em que a solução é
encontrada imediatamente. É o próprio problema da gênese da hipótese: “Por
que enquanto algumas pessoas vagam a esmo, outros pegam logo a boa pista" (Claparède,
p.128). O problema não é, pois, de encontrar a hipótese, mas as diferentes
maneiras de encontrá-la. De fato, "o espírito busca a hipótese, ele a
encontra ao invés de conformá-la". É um processo de seleção ao invés de
formação. Uma parte da démarche permanece insondável, é o momento do
surgimento ou da formação da hipótese. A conclusão de Claparède é
desconcertante: "Nossa colheita é talvez magra! E pra dizer de pronto, nós
não descobrimos o que procurávamos, a saber, como ver a hipótese brotar,
qual é o determinismo exato de seu aparecimento" (Claparède,
1934, p. 141).
Claparède se posiciona, assim, em relação às teorias de seu tempo, sobretudo
a Komplexergänzung de Otto Selz [1881-1943] (um dos importantes processos da
inteligência é a complementação do complexo, isto é, uma série de conceitos
que se relacionam de certa forma é considerada um complexo) e a Gestalttheorie (as propriedades de um fenômeno psíquico ou de um ser vivo
não resultam da simples adição das propriedades de seus elementos, mas do
conjunto das relações entre esses elementos) de Max Wertheimer [1880-1943],
Kurt Koffka [1886–1941] e Wolfgang Köhler [1887-1967].
Segundo ele, são teorias que não dão conta da descoberta da hipótese ou ao menos se desagregam progressivamente em contato com casos concretos. Parece ser impossível reconduzir a descoberta da hipótese a um mecanismo preciso. Se para a Komplexergänzung a questão desenha o esquema que o pensamento preencherá, então, se pergunta Claparède, "como ela é preenchida? A partir do momento em que esse preenchimento não é mais simplesmente reprodutivo, mas é preciso elaborar a hipótese útil, como isso se efetua? Se a invenção de uma nova técnica para resolver um problema novo é extraída de uma experiência passada, como chegamos a pensar justamente na experiência passada que contem o meio utilizável para a elucidação do problema presente?” (Claparède, p. 144).
Por sua vez, a Gestaltthéorie que explica o aparecimento brusco de certas soluções para uma brusca estruturação do campo perceptivo é igualmente limitada. O termo de estruturação é mais descritivo que explicativo, em razão de se produzir uma estruturação fecunda: porque a “má forma” se transforma “em forma boa”, numa palavra, como o espírito chega à hipótese? A boa estrutura não é uma causa, mas uma conseqüência. Conseqüência do quê? “Pode-se assimilar a função da consciência à do contador que manipula uma máquina de calcular: ele prepara os números a serem somados, aperta a tecla, anota o resultado, mas a adição não é feita por ele: a máquina a faz por ele" (Claparède, p.147). Claparède, então, conclui sobre o papel que desempenha os mecanismos inconscientes. Para Koestler, o inconsciente explica o mistério.
Em nosso ponto de vista, Claparède destaca a questão fundamental inscrita no coração da invenção, qual seja, “porque enquanto algumas pessoas vagam a esmo, outros pegam logo a boa pista?" Contudo, procurando alcançá-la diretamente, ele fracassa, segundo seus próprios termos. A resistência de seu objeto torna-se aquilo que o define, porque ele é inapreensível através dos instrumentos da observação e permanece inconsciente. Mas Claparède opera um deslocamento. As démarches que ele põe em destaque, em suas experimentações, isto é, as diferentes maneiras de testar incessantemente a fim de encontrar a descoberta da solução, a combinação de processos de inferência e a focalização sobre um detalhe, são as premissas de uma reflexão sobre a formalização das regras que governam a resolução de um problema. Procura-se exteriorizar o pensamento e circunscrevê-lo. Esta problemática encontra diretamente a questão da heurística. No prefácio da obra de Polya (1965 [1957]), encontramos uma definição: "Para alcançar o conhecimento de algumas regras eficazes da caminhada, a heurística moderna tenta compreender quais são as operações mentais típicas desse processo” (Polya, p. 8).
Trata-se, como vimos, de pesquisar a essência, isto é, de destilar os
problemas mais diversos para extrair deles o que têm, ao mesmo tempo, em
comum e de fundamental. Segundo Mattéi (1992), é o estudo
“revisto e
corrigido” das regras e dos métodos da descoberta e da invenção, já abordado
pela filosofia de René Descartes [1596-1650] e de Gottfried Wilhelm von
Leibniz [1646-1716].
À guisa de conclusão
Ao término desse artigo sobre a descoberta e a invenção científica,
constatamos que as abordagens sócio-históricas e psicológicas se perguntam
sobre a gênese ou a invenção da hipótese. A questão a ser respondida é o
porquê ele, aquela pessoa, e como isso é possível. Encontramos aí grandes
esquemas de pensamento atravessando as idades e se conjugando a momentos de
inspiração individual. Segundo os autores analisados, é sobre esses momentos
que temos que focar nossa atenção. A operação intelectual suscetível de
engendrar uma idéia nova é, então, isolada.
De igual modo, a grandeza de uma obra é procurada na grandeza da personalidade daquele que a constituiu. A psicologia singular do descobridor (Holton/Thuillier) se estende à estrutura psicológica idêntica de uma comunidade de pensamento (Feuer), da qual ela é a representante. A relatividade nasce do espírito revolucionário de seu autor, a psicanálise nasce da nevrose de seu inventor. Pode-se concluir que a universalidade das teorias nasce da universalidade de esquemas de pensamento que atravessam os espíritos singulares de seus inventores, conjugando-se a seu momento de inspiração (Holton).
Ainda naquela linha de argumentação, alguns autores analisados se perguntam
sobre as formas de espírito propícias à invenção (Poincaré/Duhem).
Concorda-se sobre sua origem intuitiva. O princípio explicativo da
iluminação é o inconsciente que torna possível novas combinações e o
critério estético que os escolheu (Poincaré/Hadamard).
Contudo, o ponto de vista permanece localizado e subjetivo. O que faz a
unanimidade, o princípio de ruptura da iluminação e sua origem inconsciente
é, essencialmente, o que é sentido, vivido e compartilhado. Koestler, então,
vai mais além propondo uma explicação psicológica do ato criador em operação
na ciência, mas também na arte e no humorismo. Assim, é dada uma explicação
do funcionamento de todo nosso aparelho psíquico. Com Koestler, o
inconsciente mecânico de Poincaré torna-se “inteligente” e estrutura nosso
psiquismo em sua abrangência. De imediato, a problemática do conhecimento,
presente em seus textos, mas deixada em estado de suspensão, é abordada em
proveito do estudo do mecanismo do processo criativo.
Com Claparède, a perspectiva se inverte totalmente. O que o intriga não é mais o que permite o aparecimento da hipótese genial, mas o que permite, repentinamente, a aparição em alguns indivíduos da resolução de problemas cotidianos. Os critérios foram deslocados. Partindo de descobertas obtidas no domínio científico, subentendidas novas e justas, os autores analisados fazem da criação um ato específico do pensamento. Claparède nega uma distinção entre o conhecimento científico e não-científico, interroga a inteligência e sua faculdade em produzir hipóteses, a qualquer hora e em qualquer lugar. A perspectiva da invenção suscetível de reorganizar o campo do saber é perdida em proveito da invenção capaz de reorganizar o campo da inteligência pontualmente desequilibrado pela introdução de um enigma novo.
É o problema da aprendizagem. A invenção torna-se, então, em Polya, a capacidade de resolver um problema. Sua solução torna-se possível se as boas heurísticas forem aplicadas. Mas, ainda que a invenção permaneça misteriosa em Claparède, seja uma combinação de regras heurísticas em Polya, ela torna-se explicável, isto é, decomposta e reprodutível.
Para aqueles autores que deixam de lado a questão da singularidade do
indivíduo/descobridor para focar a atenção sobre o ato criador, trata-se de
responder a questão de como se concebe uma idéia científica nova. São
autores que têm uma concepção da ciência que coloca como princípio de seu
desenvolvimento o aparecimento de idéias novas. A descoberta ocorre no
momento, em que a idéia nova surge, sob a forma de uma iluminação. A
iluminação é o fruto de uma inspiração individual, espontânea e
involuntária, em resumo, misteriosa. A invenção é exterior ao sujeito ou é o
momento de um mecanismo racional. A idéia nova passa de uma fronteira à
outra, como uma bandeira. Vimos, então, como a explicação centrada na
dinâmica interna da ciência, pontuada de idéias novas, pende para a análise
das formas de espíritos mais propícios, favoráveis à invenção científica e,
depois, se estende para o mecanismo intelectual que está na origem da
iluminação, o inconsciente, que torna possível novas combinações e o
critério estético que os escolheu.
Vimos que Claude Bernard e Henri Poincaré, dois cientistas que estiveram na
origem de célebres descobertas, têm pontos em comum sobre o papel da teoria
que, como único quadro possível da experiência e da intuição, é motor da
descoberta. O modelo de Bernard é prescritivo: o método permite ao cientista
guiar melhor suas idéias. Claude Bernard, como cientista-descobridor, pôs em
cena o modo de como agir de uma certa maneira com vistas a fazer
descobertas. Já o modelo de Poincaré é mais descritivo, analisando as
diferentes formas do espírito científico, dando conta e explicando as
engrenagens do próprio mecanismo inventivo. Poincaré, portanto, vai mais
longe que Bernard.
Como qualificar, então, as perspectivas apresentadas anteriormente? Segundo
a terminologia empregada pelo sociólogo da ciência Bruno Latour
(1984,
1987), podemos qualificá-la de modelo difusionista, posto que a sua
construção está alicerçada na divisão estabelecida entre o momento em que se
elabora o novo e aquele em que ele será admitido e reconhecido por todos.
Trata-se de um modelo que promove uma concepção mentalista da criação,
concepção oposta àquela desenvolvida, ao longo dos últimos 30 anos, pelos
Social Studies of Science (Machado e Teixeira, 2007). Ao contrário da
filosofia clássica da ciência que se interessava pelo contexto de
justificativa por acreditar que o contexto de descoberta tinha uma natureza
impura, os autores desse campo de pesquisa multidisciplinar se voltarão para
o contexto de descoberta, posto que ele define a natureza da racionalidade
científica, isto é, a objetividade, a prova e a verdade.
A descoberta passa, então, a ser investigada não mais como um fato estabelecido por filósofos, psicólogos e sociólogos da ciência, mas como o fruto de um processo social. A palavra “social” deixa de ser somente sinônimo de organização social da ciência e passa a ocupar um lugar no coração das interpretações e da construção dos fatos científicos. São estudos mais avançados do ponto de vista teórico, porque resgatam a riqueza da prática científica geograficamente localizada, mostram como o conteúdo do conhecimento científico é constituído, diluem o conteúdo e a singularidade da invenção, problematizam o estatuto do ator da invenção, retiram a pertinência da questão da origem da invenção e ligam as ciências com o resto do coletivo.
Mas, infelizmente, no Brasil, o campo multidisciplinar de pesquisa Social Studies of Science tem pouca adesão de pesquisadores interessados no tema,
em grande parte, devido à limitação da árvore do conhecimento do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, que cria
comissões julgadoras, classifica e enquadra os projetos com base numa
estruturação que remonta à realidade das atividades científicas de algumas
décadas atrás. Esta concepção resulta em uma produção quantitativamente
inexpressiva, em que a linha de pesquisa sobre invenção, descoberta e
inovação científica ainda não fincou raízes no meio acadêmico do campo das
ciências sociais e humanas, com seus Grupos de Pesquisa cadastrados no
Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil do CNPq.
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Sobre o autor / About the Author:
Doutor em Antropologia Social pela Université Paris V; Pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz.