Comunidade - A Busca por segurança no mundo atual
por: Zygmunt Bauman *
Ciências sociais, estudos de redes
ISBN: 8571106991
Número de páginas: 144
Editora: Jorge Zahar, 2003.
O mundo que habitamos é cada vez menos capaz
de oferecer segurança; mas há um paraíso onde estamos a salvo das ameaças
externas, um “lugar aconchegante”: a comunidade. Ao mesmo tempo em que
oferece proteção, a vida em comunidade apresenta um dilema, com suas
restrições à liberdade individual.
O tipo de entendimento em que a comunidade se baseia precede todos os
acordos e desacordos. A comunidade possui características básicas: ela é
distinta de outros agrupamentos humanos, é visível ficando
claro onde a comunidade começa e onde ela termina, ela é pequena, no
sentido de poder estar à vista de todos seus membros e é auto-suficiente,
pois deve oferecer todas as atividades para atender as
necessidades especificas das pessoas que fazem parte dela.
Existe na comunidade um sentimento recíproco e vinculante, uma vontade real
e própria daqueles que se unem e graças a este entendimento permanecem
essencialmente unidos, a despeito de todos os fatores que os separam. É um
entendimento compartilhado por todos os membros.
A comunidade não é um consenso. O consenso nada mais é que um acordo
alcançado por pessoas com opiniões essencialmente diferentes. O consenso
é o produto de negociações e compromissos difíceis, com muita disputa e
contrariedades. O entendimento na comunidade existe sem palavras.
Por isso, a comunidade é um conceito-chave para a compreensão da natureza e
o futuro das sociedades. Um desejo de que a crítica social tenha um papel
mais ativo, e indica uma direção das relações entre as esferas privada e
pública.
Contudo, a coexistência não implica uma vida compartilhada. O inimigo que
muito impede uma humanidade comum é a insegurança da perda do individualismo
com sua racionalidade da visibilidade pessoal. Este comportamento é
enfeitiçado pela idéia da autonomia individual e a defesa de espaços
proprietários.
Na sociedade do mérito individual e do consumo, que é exacerbado pelos meios
de massa,
o importante é fama e o dinheiro; bom é ser uma celebridade, destacado, pelos
holofotes, dos outros indivíduos. As pessoas hoje são avaliadas na ética do vizinho e
de outras testemunhas pelo que compram e possuem.
Um outro inimigo da vida comunitária seria o intelectualismo. A perda da
inocência é um ponto sem volta para as comunidades. Só se pode ser
verdadeiramente feliz enquanto não se sabe quão feliz se é.
Assim, em comunidade "o entendimento mútuo não pode ser expresso,
determinado e compreendido... O acordo real não pode ser artificialmente
produzido".
Como "comunidade" significa entendimento compartilhado do tipo natural e
tácito, ela não pode sobreviver ao momento em que o entendimento se torna
auto consciente, estridente e vociferante".
"Quando o entendimento mútuo se torna objeto de contemplação e exame. A
comunidade só pode estar dormente - ou morta. Quando começa a versar sobre
seu valor singular, a derramar-se lírica sobre sua beleza original e a
afixar nos muros próximos loquazes manifestos conclamando seus membros a
apreciarem suas virtudes... podemos estar certos de que a comunidade
não existe mais."
"A comunidade falada ou mais exatamente: a comunidade que discute sobre de
si mesma é uma contradição."
Um outro golpe mortal do entendimento comunitário é desferido pelo advento
da das redes eletrônicas quando o transporte do fluxo de informação se
desvincula dos membros da comunidade. "A partir do momento em que a
informação passa a viajar independente de seus portadores, e numa velocidade
muito além da capacidade dos meios mais avançados de transporte, a fronteira
entre o "dentro" e o "fora" não pode mais ser estabelecida e muito menos
mantida."
"De agora em diante, toda homogeneidade deve ser "pinçada"de uma massa
confusa e variada por via de seleção, separação e exclusão; toda unidade
precisa ser construída; o acordo "artificialmente produzido" é a única forma
disponível de unidade."
"O entendimento comum só pode ser uma realização, alcançada ao fim de longa
e tortuosa argumentação e persuasão, e em competição com um número
indefinido de outras potencialidades - todas atraindo a atenção e cada uma
delas prometendo uma variedade melhor (mais correta, mais eficaz ou mais
agradável) de tarefas e soluções para os problemas da vida."
"E, se alcançado, o acordo comum nunca estará livre da memória dessas lutas
passadas e das escolhas feitas no curso delas. Por mais firme que
seja estabelecido, portanto, nenhum acordo parecerá tão "natural" e evidente
... "
"Nunca será imune à reflexão, contestação e discussão; quando muito atingirá
o status de um "contrato preliminar": um acordo que precisa ser
periodicamente renovado, sem que qualquer renovação garanta a renovação
seguinte."
Assim com a informática das redes: "Mais do que com uma ilha de
"entendimento natural", ou um "círculo aconchegante" onde se pode depor as
armas e parar de lutar, a comunidade realmente existente se parece com uma
fortaleza sitiada, continuamente bombardeada por inimigos (muitas vezes
invisíveis) de fora e freqüentemente assolada pela discórdia interna.."
* Zygmunt Bauman é professor emérito das universidades de Leeds, na
Inglaterra, e de Varsóvia, na sua Polônia natal.
Aldo de Albuquerque Barreto
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