DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.9   n.1 dez/08                            RECENSÕES

Comunidade - A Busca por segurança no mundo atual

por: Zygmunt Bauman *
Ciências sociais, estudos de redes
ISBN: 8571106991
Número de páginas: 144
Editora: Jorge Zahar, 2003.


O mundo que habitamos é cada vez menos capaz de oferecer segurança; mas há um paraíso onde estamos a salvo das ameaças externas, um “lugar aconchegante”: a comunidade. Ao mesmo tempo em que oferece proteção, a vida em comunidade apresenta um dilema, com suas restrições à liberdade individual.

O tipo de entendimento em que a comunidade se baseia precede todos os acordos e desacordos. A  comunidade possui características básicas: ela é distinta de outros agrupamentos humanos, é visível ficando claro onde a comunidade começa e onde ela termina, ela é pequena, no sentido de poder estar à vista de todos seus membros e é auto-suficiente,  pois deve oferecer todas as atividades para atender as necessidades especificas das pessoas que fazem parte dela.

Existe na comunidade um sentimento recíproco e vinculante, uma vontade real e própria daqueles que se unem e graças a este entendimento permanecem essencialmente unidos, a despeito de todos os fatores que os separam. É um entendimento compartilhado por todos os membros.

A comunidade não é um consenso. O consenso nada mais é que um acordo alcançado por pessoas com opiniões essencialmente diferentes. O consenso é o produto de negociações e compromissos difíceis, com muita disputa e contrariedades. O entendimento na comunidade existe sem palavras.

Por isso, a comunidade é um conceito-chave para a compreensão da natureza e o futuro das sociedades. Um desejo de que a crítica social tenha um papel mais ativo, e indica uma direção das relações entre as esferas privada e pública.

Contudo, a coexistência não implica uma vida compartilhada. O inimigo que muito impede uma humanidade comum é a insegurança da perda do individualismo com sua racionalidade da visibilidade pessoal. Este comportamento é enfeitiçado pela idéia da autonomia individual e a defesa de espaços proprietários.

Na sociedade do mérito individual e do consumo, que é exacerbado pelos meios de massa, o importante é fama e o dinheiro; bom é ser uma celebridade, destacado, pelos holofotes, dos outros indivíduos. As pessoas hoje são avaliadas na ética do vizinho e de outras testemunhas pelo que compram e possuem.

Um outro inimigo da vida comunitária seria o intelectualismo. A perda da inocência é um ponto sem volta para as comunidades. Só se pode ser verdadeiramente feliz enquanto não se sabe quão feliz se é.

Assim, em comunidade "o entendimento mútuo não pode ser expresso, determinado e compreendido... O acordo real não pode ser artificialmente produzido".

Como "comunidade" significa entendimento compartilhado do tipo natural e tácito, ela não pode sobreviver ao momento em que o entendimento se torna auto consciente, estridente e vociferante".

"Quando o entendimento mútuo se torna objeto de contemplação e exame. A comunidade só pode estar dormente - ou morta. Quando começa a versar sobre seu valor singular, a derramar-se lírica sobre sua beleza original e a afixar nos muros próximos loquazes manifestos conclamando seus membros a apreciarem suas virtudes... podemos estar certos de que  a comunidade não existe mais."

"A comunidade falada ou mais exatamente: a comunidade que discute sobre de si mesma é uma contradição."

Um outro golpe mortal do entendimento comunitário é desferido pelo advento da das redes eletrônicas quando o transporte do fluxo de informação se desvincula dos membros da comunidade. "A partir do momento em que a informação passa a viajar independente de seus portadores, e numa velocidade muito além da capacidade dos meios mais avançados de transporte, a fronteira entre o "dentro" e o "fora" não pode mais ser estabelecida e muito menos mantida."

"De agora em diante, toda homogeneidade deve ser "pinçada"de uma massa confusa e variada por via de seleção, separação e exclusão; toda unidade precisa ser construída; o acordo "artificialmente produzido" é a única forma disponível de unidade."

"O entendimento comum só pode ser uma realização, alcançada ao fim de longa e tortuosa argumentação e persuasão, e em competição com um número indefinido de outras potencialidades - todas atraindo a atenção e cada uma delas prometendo uma variedade melhor (mais correta, mais eficaz ou mais agradável) de tarefas e soluções para os problemas da vida."

"E, se alcançado, o acordo comum nunca estará livre da memória dessas lutas passadas e das escolhas feitas no curso delas. Por mais firme que
seja estabelecido, portanto, nenhum acordo parecerá tão "natural" e evidente ... "

"Nunca será imune à reflexão, contestação e discussão; quando muito atingirá o status de um "contrato preliminar": um acordo que precisa ser periodicamente renovado, sem que qualquer renovação garanta a renovação seguinte."

Assim com a informática das redes: "Mais do que com uma ilha de "entendimento natural", ou um "círculo aconchegante" onde se pode depor as armas e parar de lutar, a comunidade realmente existente se parece com uma fortaleza sitiada, continuamente bombardeada por inimigos (muitas vezes invisíveis) de fora e freqüentemente assolada pela discórdia interna.."



* Zygmunt Bauman é professor emérito das universidades de Leeds, na Inglaterra, e de Varsóvia, na sua Polônia natal.

Aldo de Albuquerque Barreto

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