Mudança estrutural na condição da escrita
por Aldo de Albuquerque Barreto
"A palavra e a imagem são duas correlações que se buscam eternamente”
Goethe
É importante ter uma idéia geral das funções da linguagem e de sua relação com os atos de transferência da informação. Um ato de comunicação se efetiva quando um emissor ou remetente envia uma mensagem a um destinatário ou receptor. Para realizar-se de forma eficaz, a mensagem necessita de um contexto de referência, que precisa ser acessível ao gerador e receptor.Este contexto deve ser verbal ou passível de ser verbalizado. É necessário ainda um código, total ou parcialmente comum ao emissor e ao receptor, e, finalmente, um contato, isto é, um canal físico e uma conexão psicológica, entre os dois, que os capacitem a entrar e a permanecer em contato.
Acredito que ao relacionar-se com um texto de informação o receptor realiza reflexões e interações que lhe permitem evocar conceitos mentais relacionados explicitamente com a informação recebida do gerador. É uma interação de um pensamento que é seduzido por condições quase ocultas, silenciosas, de um meditar próprio de sua mais sensível privacidade. Ao apropriar uma informação textual o leitor considera nesta interatuaçao:
a) o contexto do texto, enquanto estrutura de informação;
b) a sua colocação em relação ao texto, no tempo e no espaço da interação;
c) o estoque de informação acumulado na sua consciência;
d) as suas possibilidades de tradução simbólica do código ou sub-código lingüístico na qual o texto está inserido.
Existe, contudo, um crescente entendimento de que a informação que é útil ao receptor é acessível, cada vez mais, em diferentes meios, classes, formas e linguagem. Esta informação quando em uma superlinguagem de formato eletrônico e usando multimeios na sua significação poderá ser contextualizada para um receptor ou um grupo homogêneo de receptores.
Isto significa que, posso realizar com técnicas previsíveis, um agregado homogêneo de textos de informação utilizando um único código lingüístico comum na recepção.
Quando em uma configuração hipertextual, uma organização pelo ajuntamento homogêneo de conteúdos é quase impossível; o hipertexto pode até verticalizar uma narrativa em enunciados similares, mais sua tendência e liberdade estão nas trajetórias estendidas horizontalmente, que é paralela ao horizonte. São novos desafios que as tecnologias intensas de informação estão colocando aos profissionais do campo. Há que reestudar conceitos, redefinir relações, pensamentos, emoções.
A escrita aberta e a escrita fechada têm nexo com a base de inscrição da informação. Uma estrutura de informação é formada pelas inscrições ou conjunto de expressões, que a escrita fixou em uma determinada base de suporte; uma agregação que compõe um todo simbolicamente significante e a sua interrelação com este todo. Um texto tem caminho finito e limitado,.
Já uma escritura aberta é como um sistema, denunciada pelo seu "grammé", que é o traço de uma escrita com a intenção de estar próxima da narrativa oral pelas suas possibilidades de apresentar na mesma base uma explanação visual, gestual, figural, musical, verbal. Um documento de formato digital.
A escritura sistêmica é de alguma forma, externa à linguagem, uma explosão semiótica, pois agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende unicamente a visão linear, como de um folhetim, onde a escrita é de enunciação continua e finita. Se conta com um destino estrutural determinado.
Cada vez mais se lê diretamente na tela do computador pessoal. Pixels de fósforo, que ligam e desligam, se assemelham a vagalumes evanescentes que lembram os mecanismos do próprio pensar. O interesse na leitura digital são os seus diferentes rumos, a sedução da viagem por escritos entrelaçados; a escritura com sua aproximação da oralidade é um novo paradigma de escrita e leitura. "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem." [1]
Daí que, escrever para a web exige cada vez mais poder de síntese e praticidade além de uma apresentação com elementos de visualização amigável que elimine o estresse cognitivo.
Ao enfeitiçar palavras, um profissional da escrita visual ganha leitores. Muitos se estendem mais do que deveriam ao expor suas idéias. E falta tempo para leitura de tudo que esta sendo escrito ou enunciado. Não é mais você que pede uma hora para falar. Agora é o seu interlocutor que lhe concede alguns minutos.
O problema dos documentos que usam a superfluidade com as palavras é que eles perpetuam uma cultura estudantil de escrita. O velho vício de organização das idéias no formato: introdução, desenvolvimento e conclusão, como se escrever com ordem e método fosse a única expressão do pensamento; uma maneira de redigir como em um exercício padrão.
O ápice da mensagem digital não está mais no seu desenrolar. Pelo contrário, a conclusão tem que vir primeiro. Procurar ser eficiente e aperfeiçoar o tempo da escrita com o da leitura possível.
Os documentos de amanhã serão cada vez mais documentos eletrônicos em formato digital. Tenho forte intuição, que as ciências da informação não tem uma adequada apreciação deste problema, mas que isto já está sendo notado pelas grandes fomentadoras de pesquisa. Nossos usuários de hoje não são os mesmos de 20 anos atrás.
As pessoas de amanhã já começam a traçar suas condições de aprendizado hoje. Isto é mais que a tecnologia de informação é o futuro que se anuncia no presente. Aqueles que não cruzarem os abismos das novas plataformas da escrita ficarão definitivamente para traz na condição de gerar informação para o conhecimento.
Referências Bibliográficas:
Aldo de Albuquerque Barreto
aldo.barreto@gmail.com
Doutor em ciência da informação; pesquisador titular do Ministério da Ciência e Tecnologia no IBICT.