Assim, a sociabilidade humana exige também a existência da linguagem para que o trabalho seja efetivamente o criador de uma segunda na natureza, produto do arbítrio e da imposição do homem como ser social. É somente por meio da aprendizagem que o produto do trabalho se transforma em conhecimento acumulado e em forma específica de apropriação da natureza, ou seja "cultura". Outros primatas têm a capacidade de alterar o ambiente em seu benefício, assim como formas rudimentares de linguagem, mas não têm a capacidade de arbitrar sobre o ambiente ou de criar representações e projeções que configuram um conhecimento específico da natureza que é a "cultura".
A notável imbricação entre trabalho e conhecimento potencializou ambos os elementos da equação, mas passou a exigir novos esforços explicativos da realidade. A questão do trabalho enquanto processo social produtor de riqueza passou a ser cada vez mais questionado na sua centralidade, mas passou a se apresentar como um grave problema a ser resolvido não só pelas ciências econômicas e sociais, mas com a eventual interferência do Direito. A questão do trabalho passa também, e cada vez mais, a ser novamente um problema social central, na medida em que se amplia e difunde para áreas do ambiente, da saúde, da promoção social, da segurança pública, da qualificação profissional.
Tudo indica, portanto, que o problema do trabalho, deslocado pela revolução científica e tecnológica, volte a se apresentar, agora com a exigência de um novo relacionamento entre trabalho e conhecimento, entre ser social humano e ambiente terrestre. Nas condições de prevalência da revolução técníco-científica e gerencial, que reordena a forma da acumulação capitalista, a relação entre trabalho social produtivo e produção do conhecimento tendem a se estreitar dramaticamente, na medida mesmo em que conhecimento científico passa a ser imediatamente mercadoria. Uma problemática que a Universidade pública não pode deixar de abordar, já que tem implicações diretas sobre o produto da sua atividade social e cultural, sobre a sua autoconsciência. Não só o conhecimento produzido é mercadoria, mas o jovem trabalhador que se forma adquirindo conhecimento e qualificação, também é mercadoria (que pode ou não ser trocada por salário).
No entanto, a Universidade age, ou deveria agir, para a formação de consciências criticas e sujeitos ativos. É precisamente nessa direção que seguem as perspectivas que visam inserir a Universidade como agente ativo e formador de políticas públicas, que contribuam para a formação de uma cidadania democrática, ainda que dentro das condições sempre mais difíceis da globalização neoliberal.
A Universidade pública é, sem dúvida, uma instituição que opera para a reprodução da ordem vigente, mas é fundamental para a produção e a difusão do conhecimento; produz conhecimento e trabalhadores para o capital, mas desenvolve ações tendo em vista a melhoria da vida social; é necessária para que o capital obtenha ciência e trabalhadores qualificados, mas também é necessária pra que os jovens tenham acesso ao conhecimento.
É dentro dessa situação paradoxal ou mesmo contraditória que os ensaios do presente livro, devem ser lidos, com posições teóricas as mais diferentes, se postam, ainda que de modo implícito, no mais das vezes. Qual seria, afinal, o espaço para o conhecimento crítico da ordem? A Universidade ainda tem algo a dizer a esse respeito?
[texto retirado de material do próprio livro]
SUMÁRIO
I AS CONDIÇÕES DO CONHECIMENTO
Dimensões da globalização: uma perspectiva
crítica do capitalismo global
Giovannti Alves
Trabalho e conhecimento: desafios de uma ciência para o homem
Marcos Dei Roio
Ciência com consciência: uma reflexão sobre a
ciência e o seu sentido
António F. Cachapuz
Auto-organização no conhecimento científico
Osvaldo Pessoa Junior
II UNIVERSIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS
Universidade e atuais condições de produção
do conhecimento
Rosemary Dore Soares
Inclusão, políticas públicas e o papel da Universidade
Júlio Romero Ferreira
Universidade, conhecimento e ação contra a violência
Sueli Andruccioli Félix
O futuro da Universidade
Franklin Leopoldo e Silva
III NOVAS TECNOLOGIAS E SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Homem informacional: falsa solução para o falso dilema
homem-máquina
Terezinha Ferrari
Informação e tecnologia para o conhecimento: desafios
da Ciência da Informação
Plácida L. V. Amorim da Costa
Santos
A ciência da informação e as suas interfaces
Mirian Vieira da Cunha
O tempo e o espaço da sociedade da informação
no Brasil
Aldo de Albuquerque Barreto
Las competências profesionales em Biblioteconomia y Documentacion
desde los planes de Ia Union Europea en política dei conocimiento
José Antonio Moreiro; Mercedes
Caridad
IV CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO E EDUCAÇÃO
EM CIÊNCIAS
Origens e evolução da pesquisa em Educação
em Ciências no Brasil: uma retrospectiva histórica
Roberto Nardi
Produção do conhecimento científico em aula
e a formação de professores em ciências
Anna Maria Pessoa de Carvalho
A visão de professores da Universidade sobre a pesquisa na
formação para o magistério
Menga Liidke
Da alfabetização ao letramento
Maria do Rosário
Longo Mortatti
Gestão de sistemas educativos e unidades escolares: qualidade
de ensino e educação democrática
Maria Sylvia Simões
Bueno
V DIFUSÃO DO CONHECIMENTO E EDUCAÇÃO ESPECIAL
Problemas e perspectivas da educação inclusiva no
Brasil
Enicéia Gonçalves
Mendes
O inventário Portage operacionalizado e a abordagem sistêmica
na intervenção com famílias: incompatíveis
ou aliados?
Ana Lúcia Rossito
Aielo e Lucia Cavalcanti de Albuquerque Williams
Centro Ann Sullivan do Peru: transformando o impossível em
possível - um programa de primeira classe, com recursos de quarta
classe num país de terceiro mundo
Liliana Mayo; Judith
M. Le Blanc
A especificidade da surdez e a inclusão
Maria Cristina da
Cunha Pereira
Do processo de inclusão ao individuo incluído sob
a perspectiva fonoaaudiológica
Léslie Piccolotto
Ferreira
[*] Recensão escrita por Aldo de Albuquerque Barreto
European Stamp Design: a semiotic approach to designing messages
SCOTT, David
London: Academy Editions, 1995. 143 p. il.
A Semiótica no Selo Postal: construção teórica da representação temática **
Um pouco mais de 150 anos após a criação do primeiro selo postal adesivo em Londres (U.K.) 1840, como até hoje relatado pelos estudiosos da Filatelia, quase que 800 entidades - entre Estados e Autarquias - emitem anualmente um aproximado montante de 10.000 selos postais, além de variedades filatélicas.
Não deve ser uma surpresa saber que existem milhares de publicações na área, por hora denominada, de "Ciência Filatélica". Estima-se que em dias atuais estejam sendo editadas 500 obras no mundo. Contudo, grande parte dessa vasta literatura serve com exclusividade aos filatelistas, ou seja, colecionadores de selos postais e suas variedades.
Esta literatura é composta basicamente por catálogos e livros sobre o colecionismo, além de um grande número ser destinado à temática das coleções emitidas, além de periódicos (jornais e revistas). Obras devotas à exploração das relações entre as diferentes áreas do conhecimento (sociologia, educação, cultura, linguística, arquivologia, biblioteconomia e etc.) e o selo postal são raras. "Typographic Posters: from postage stamps to 24 sheet billboards"; "Illustrated history of stamps design"; e "Paper Ambassadors: politics on stamps", sâo algumas das obras literárias filatélicas, publicadas nos últimos 20 anos, que tratam desta nova ciência, digamos, de uma forma um pouco mais científica.
Apesar de serem obras de fundamental relevância para um estudo mais aprofundado da filatelia, nenhuma citada anteriormente aborda a filatelia numa perspectiva semiótica do selo postal. Assim, afirma-se que este pequeno objeto da cultura humana detém uma função complexa e intrínseca de valores e mensagens, ambas efetivas, simbólicas e verdadeiras.
A capacidade humana de abstração e simbolização é uma característica singular e inerente à própria natureza intelectual da espécie. Essa capacidade define-se pela faculdade específica de operar com mediações lógicas que nos reportam aos objetos sem que tenhamos de manipulá-los, permitindo a representação dos conceitos.
A linguagem humana, capacidade de comunicação por meio de símbolos precisos, é referida como a condição principal do desenvolvimento cultural e a realização mais elaborada e completa do indivíduo em sua capacidade de operação com signos. Através da aquisição gradual de um sistema simbólico, o ser descobre uma maneira de adaptação ao meio, transformando toda sua vida.
Neste contexto se insere o livro hora referenciado. European Stamp Design de David Scott, professor do Departamento de Francês do Trinity College (Dublin, Irlanda), aborda de forma pioneira o selo postal sob uma perspectiva da semiótica de forma íntima e densa. Publicado em 1995 e ainda não traduzido para o português, seu livro reflete as melhores características do objeto que se dedica a estudar.
Na introdução, o autor apresenta a fundamentação teórica que dá suporte ao seu estudo. Trata-se da divisão da relação entre significado e significante nas três categorias: signo, ícone e símbolo. Scott usa de forma exaustiva e inteligente as úteis ferramentas de Charles S. Pierce, para sua investigação do status semiótico do selo postal e de algumas tendências por trás do design destes.
A Teoria Geral dos Signos, emergente da Semiótica, postulada por Pierce, possui um prisma de altíssimo valor à abordagem realizada no livro. Seus conceitos pragmáticos, pela própria natureza de sua origem, levam em conta as questões acerca dos fenômenos cognitivos, quando discutem as noções de "interpretante" e suas relações com outros dois elementos da cadeia semiótica, o "representamem" e o "objeto".
Da forma que é colocado, o objeto de estudo possui uma função sígnica primária, mas também contém elementos icônicos e simbólicos. Sob um olhar principalmente político, o selo postal representa um país de diversas formas. Pelo nome do país impresso (geralmente em língua inglesa); pela simbologia usada para identificar a moeda corrente do país onde foi emitido, o qual também serve para identificar o país de origem do selo e, por último, pela forma que é expressa no objeto alguma figura que represente o país, por exemplo: os selos emitidos na Inglaterra usam como forma de identificação a cabeça da Rainha Vitória.
Ainda seguindo esta análise, o selo postal pode representar um país quando este emite um fato em forma de simbologia comemorativa. Neste caso o selo é chamado de comemorativo. A partir deste tipo de emissão, o selo postal passou a acarretar uma vontade maior do indivíduo de praticar o colecionismo.
Segundo o autor existe neste objeto uma tensão constante na sua heterogeneidade semiótica, em particular entre o signo e o ícone. Esta tensão é estudada a fundo por Scott, dando particular preferência às diversas estratégias de design que vários países do continente europeu desenvolveram no decorrer dos séculos XVIII e XIX para representar suas idéias de comemorabilidade de um fato, além de definir também a forma como iam criar essa arte.
Numa passagem do livro Scott dimensiona a importância cultural do selo: "...o selo postal adesivo possui uma densidade de concentração ideológica por polegada quadrada maior do que qualquer outra forma de cultura humana." (N.T.). O corpus da obra se baseia na exploração do design filatélico de cinco países europeus, a saber: Inglaterra, Irlanda, Holanda, França e Suíça.
Um capítulo em particular apresenta e analisa imagens exóticas de designers ingleses famosos por trabalharem em obras referentes à filatelia. Obviamente este livro não é mais um daqueles que abordam a taxinomia (sistemática filatélica) dos selos postais e variedades destes.
Decerto, é uma obra que num texto e numa narrativa densa, de layout atrativo e com mensagens claras, oferece um estudo aprofundado, íntimo, sedutor, instigante, esclarecedor e científico sobre um espaço visual detentor de fortes ordens políticas e culturais, temática até então negligenciada.
Um livro bem feito tipograficamente, com centenas de ilustrações, a maioria colorida. Realmente, um deleite para quem deseja aventurar-se na semiótica da cultura, na cultura da semiótica e na Ciência Filatélica.
A linha de estudo a que pretende esta resenha oferece suporte introdutório
aos estudos que visam elaborar conceitos e modelos que sirvam à
representação temática do documento que, por ora,
será denominado de documento filatélico, e que no seu pequeno
corpus contém informação filatélica.
[**] Recensão escrita por Diego A. Salcedo
Graduando do Curso de Biblioteconomia
Departamento de Ciência da Informação
Universidade Federal de Pernambuco