As estruturas de suporte da informação no processo do conhecimento: o papel da fluência digital
A importância que a informação assumiu na atualidade pós-industrial recoloca para o pensamento questões sobre a sua natureza, seu conceito e os benefícios que pode trazer ao indivíduo e ao seu relacionamento com o mundo em que vive.Associada ao conceito de ordem e de redução de incerteza, a informação identifica-se com a organização de sistemas de identidades inanimadas ou de seres vivos racionais. Nesta coluna, contudo, ficaremos limitados à observação e discussão de características e qualidades referentes ao fenômeno da informação entre seres humanos habitando um determinado espaço social, político e econômico, em que existem uma fonte geradora ou um emissor de informação, um canal de transferência e um destinatário ou receptor de uma mensagem com condições semânticas.
Nesse sentido, tem-se procurado caracterizar a essência do fenômeno da informação como a adequação de um processo de distribuição que se efetiva entre o emissor e o receptor de um documento. Assim, os diversos conceitos encontrados para a informação tendem a se localizar no começo e no fim do processo de comunicação.Quando se observa do lado do gerador, ou tem-se definições, como a estrutural, que indicam ser a informação o resultado da relação estática entre objetos materiais, independentes da ação dos seres humanos, ou tem-se a definição relacionada somente à mensagem, em que a informação é indicada como símbolo produzidos por um gerador para efetivar um processo de transferência. Nestas definições, o receptor da informação está excluído do processo, ou não é necessário para a sua explicação.
As definições de informação quando relacionadas ao receptor reforçam a intenção semântica da transferência, adjetivando o conceito com o significado da mensagem, seu uso efetivo e a ação resultante do uso.
Contudo, são as definições - que relacionam a informação à produção de conhecimento no indivíduo - as que melhor explicam a natureza do fenômeno, em termos finalistas, associando-o ao desenvolvimento e à liberdade do indivíduo, de seu grupo de convivência e à da sociedade como um todo. Aqui a informação é qualificada como um instrumento modificador da consciência e da sociedade como um todo. Aqui a informação é avaliada como um instrumento modificador da consciência do homem e de seu grupo. Deixa de ser uma medida de organização para ser a organização em si quando forma os ambientes de convivência. No conhecimento, que se realiza só se a informação é percebida e aceita como tal, o indivíduo se estabelece em um estágio melhor de convivência consigo mesmo e dentro do mundo em que sua historia individual se desenrola.
A informação, quando adequadamente assimilada, produz conhecimento, modifica o estoque mental de informações do indivíduo e traz benefícios ao seu desenvolvimento e ao desenvolvimento da sociedade em que ele vive.
Assim, como agente mediador na produção do conhecimento, a informação qualifica-se, em forma e substância, como estruturas significantes com a competência de gerar conhecimento para o indivíduo e seu grupo.
A questão que se coloca agora é a de como se trabalhar com a informação enquanto estruturas significantes, no sentido de direcioná-la ao seu propósito de produtora de conhecimento para a sociedade. Como se organiza, controla e distribui de maneira correta, política e socialmente, a informação, considerando a sua ingerência na produção do conhecimento.Outra característica da informação é a sua forma, determinada por sua estrutura de suporte e o código específico utilizado para a sua representação. Porém, é o conteúdo que qualifica a informação. A correta estruturação semântica do código, em seus diversos níveis de complexidade, atribui valor à informação, determina a sua natureza e a possibilidade de uma decodificação consciente.
A estrutura de informação é considerada como qualquer base que aceite uma inscrição de informação; é pensada como sendo um conjunto de elementos que formam um todo ordenado e com princípios lógicos, com coerência de raciocínio, de idéias. Este conjunto pode ser linear ou não. Acreditamos que qualquer estrutura de informação de escritura textual ou digitalizada possuem características estruturais de linguagem que admitem uma análise sintática e morfológica, onde partes adequadamente selecionadas podem representar o todo para análise.
As estruturas de suporte físico da informação operam positivamente em relação à geração do conhecimento, e a qualidade, a amplitude e a facilidade de assimilação da informação são influenciadas pela estrutura do texto, seja em uma escritura linear impressa ou por um texto digital tipo hipertexto. Nesse segundo caso temos que considerar a magnitude com que a fluência tecnológica facilita a geração do conhecimento, ou se o desconhecimento das condições de operar digitalmente dificulta a apropriação da informação para seu conhecimento.
A consciência do saber agir no mundo digital produz efeitos que vão além do ato digital em si?
Entendemos e pesquisamos que a qualidade da estrutura de suporte digital via um documento de hipertexto possibilita um processo de apropriação de conhecimento, pela informação, com maior escopo e menor tensão cognitiva.*
É de se esperar que existam diferentes níveis de fluência digital, que necessitam ser definidos para formar uma relação de competência digital apropriada, pois a fluência digital adequada está diretamente relacionada com a apropriação da informação digital e a potencialidade do conhecimento gerado. Há que ser lembrado, ainda, que existem fatores contextuais, principalmente a renda, a educação e o contexto informacional, que facilitam ou inibem a fluência digital e, consequentemente, a apropriação da informação em meio digital e a própria inclusão informacional.
* Tensão cognitiva : relativa a uma situação de acesso a informação, em que ocorre uma freqüente situação de exposição a grandes volumes de informação que necessitam ser avaliadas para a decisão e escolha de opções adequadas, com relevância e prioridade, do que seria a mais útil para o receptor e sua necessidade.
Aldo de Albuquerque Barreto
aldoibict@alternex.com.brPesquisador Titular do MCT-IBICT