Resumo: Os conhecimentos e as histórias
de seus desenvolvimentos poderiam ser descritos como uma tentativa de controle
da "explosiva" diversidade que o mundo nos apresenta. A história
das sistematizações e das estatísticas se confunde
com a mesma história das ciências. Contudo, o esforço
de expurgo dos conteúdos na contabilidade dos meios e o de expurgo
dos valores relativamente às ciências naturais justificam
plenamente pensar a "explosão da informação" como
uma das obsessões de nossa época, algo que se cria e se sustenta
alimentado por sua própria existência obsessiva.
Palavras-chave: Explosão da Informação;
Crescimento do Conhecimento; Sociedade da Informação; Obsessão
Social.
Abstract: Knowledge and the histories of its development
could be described as an endeavour to control the "explosive" diversity
the world exhibits to us. The history of sistematizations and statistics
merges into the very history of sciences. Nevertheless, the struggle to
purge contents from media accounting, as well as to purge value from natural
science, it completely justifies to think of "information explosion" as
a contemporary obsession, created and fed by its very obsessive existence.
Keywords: Explosion of Information; Growth of
Knowledge; Information Society; Social Obsession.
A explosão,
Há uns vinte anos atrás, um texto de Guy Durandin [1] escrito para uma enciclopédia filosófica francesa monumental procurava dar conta de algumas das relações entre a Filosofia e a Informação, ou melhor, entre o Filósofo e a Informação. O artigo "Le philosophe devant l'information" aponta, em determinado momento, para um certo "crescimento do conhecimento", sintoma do qual era considerado, naquele caso e sem muita justificação, a quantidade, de comprovação bem documentada, de livros e bibliotecas na França, desde a Idade Média até hoje, informações complementadas por especulações igualmente quantitativas sobre as práticas de leitura de algumas figuras ilustres. Fala-se de quantidade de livros possuídos por categoria profissional, de capacidade de leitura num período de vida intelectualmente ativo, das exigências crescentes em número e diversidade de informações disponíveis para um mesmo indivíduo. Fala-se também da taxa de crescimento linear das prateleiras da biblioteca da Sorbonne como evidência do tal acúmulo de "conhecimentos".
Aos livros, se acrescentam as revistas, os jornais, as emissões radiofônicas e as televisivas. Já se falava, mas não tanto, de computador (o artigo foi publicado em 1989, mas deve ter sido escrito bem antes disso). Assim, Guy Durandin até que nos parece hoje bem modesto em suas observações sobre o crescimento "fantástico" e "esmagador" do "saber".
Mais recentemente - pelo menos desde 1999 -, e deste outro lado do Atlântico, Peter Lyman [2] vem desenvolvendo na Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA, um projeto tendo em vista estimar a quantidade total de informações disponíveis no mundo, usando para isto a contabilidade dos suportes, i.e., papel, discos ópticos, magnéticos, etc. Mutatis mutandi, uma generalização do método da taxa de crescimento linear das prateleiras.
Em ambos trabalhos, se reconhece, mais ou menos explicitamente, a existência de um acúmulo exponencial daqueles materiais e, assim, daquilo de que seriam indicadores, isto é, da informação e do conhecimento. Há uma preocupação evidente com uma certa falta de controle sobre aquele crescimento e seus produtos, com o seu acesso e com a sua inteligibilidade, o que está de acordo com o que se divulga correntemente sobre a "explosão da informação" - ou "do conhecimento", característica da nossa "era", da "sociedade da informação" - ou "do conhecimento".
Parece que projetos censitários semelhantes sempre foram perseguidos com os mais diversos pretextos ou finalidades, geralmente acompanhados por imensos esforços de quantificação, catalogação, classificação e indexação.[3]
Luiz Felipe Baêta Neves [4], falando especificamente de catálogo, diz: "Como figura da memória social, o catálogo muitas vezes oscila entre dois extremos simbólicos. Em um, parece querer estancar o ameaçador fluxo de perda da memória; no outro extremo, parece auxiliar indispensável no controle ao excesso, à entrada ininterrupta de documentos, livros etc. Ambivalência que pode vir a reforçar a idéia de catálogo como 'neutralidade', como imparcial instrumento da razão, da organização e da objetividade."[pg.15].
Mas a redação acima aplica-se com tanta ou maior propriedade à Ciência, ou ao conhecimento organizado, no sentido amplo. Seria possível repetir, com ligeiras modificações: "Como figura da memória social, a Ciência - ou o conhecimento organizado - muitas vezes oscila entre dois extremos simbólicos. Em um, parece querer estancar o ameaçador fluxo de perda da memória; no outro extremo, parece auxiliar indispensável no controle ao excesso, à entrada ininterrupta de informações. Ambivalência que pode vir a reforçar a idéia de Ciência como 'neutralidade', como imparcial instrumento da razão, da organização e da objetividade."
Aqui temos a idéia de uma ciência-instrumento capaz de permitir a leitura "controlada" do "livro do mundo". Porque a Ciência é, certamente, uma figura da memória social, e um seguro contra a sua perda.[5]
A rigor, os conhecimentos e as histórias de seus desenvolvimentos poderiam ser descritos e narrados desde o ponto de vista das tentativas de controle da "explosiva" diversidade que o mundo nos apresenta. A história das sistematizações e das estatísticas se confunde com a mesma história das ciências. Há que considerar algumas nuances, contudo.
Por alguma razão, consideramos natural aplicar, por exemplo, a tabela periódica dos elementos químicos a um problema, ou mesmo "explicar" um fenômeno por ela. Nada demais se cada elemento químico deve ter seu lugar na tabela periódica. Aliás, é realmente maravilhoso que ela seja periódica e regular, mas, em geral, já não nos surpreende a sua aplicabilidade. Agimos distintamente, contudo, em relação, por exemplo, ao Código Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde. Podemos achar esquisito, por exemplo, que cada doença "deva" ter um número. Também costumamos distinguir entre a "necessidade" de um conjunto de dimensões fundamentais (v.g., comprimento, tempo, massa - LTM) e a "arbitrariedade" de um sistema de unidades de medida (v.g., Sistema Internacional de Unidades). Isto é, algumas escolhas nos parecem mais naturais do que outras.
Falamos de ordenação, em geral, mas diferenciamos uma organização de livros por tamanho, ou por ordem alfabética de nome de autor, de outra organização com base em certas características de conteúdo. Do mesmo modo, distinguimos entre o que podemos chamar de "leitura associativa" e outro tipo de leitura, por assim dizer, "indexada". Na primeira, as direções de leitura dependem de cada elemento lido ou examinado, como na inspeção de um quadro; na segunda, já está prevista a concatenação da leitura dos elementos, segundo uma certa ordem predeterminada, assim como no caso de um texto em português corrente - de cima para baixo, da esquerda para a direita, verso da página à esquerda.
Tendo-se como horizonte uma "inquestionável explosão da informação", contudo, estas diferenças tendem a se apagar, torna-se mais natural (ou mesmo indispensável ) a imaginação de um contínuo entre o "conhecimento", a "informação" e o "dado", entre o "suporte", a "forma" e a "inteligibilidade". Cada um como signo, índice ou sintoma do outro, enfim comensuráveis e quantificáveis, pode-se transitar facilmente, sem corar, pela "gestão do conhecimento", das "tecnologias da inteligência" à "inteligência competitiva".
É claro que esta uniformização radical não
é condição para qualquer tratamento quantitativo de
conteúdos. Pois temos as séries documentais e a estatística
histórica, por exemplo. Aqui se reconhece que o que se obtém
dos conjuntos - e de certas seleções - não emerge
de cada elemento singular nem de uma uniformidade forçada, mas da
associação significativa da suas diferenças. Jacques
Le Goff [6] descreve as mudanças de método
da investigação histórica, abandonando a seleção
de certos vestígios - particularmente os escritos, em detrimento
de outros - na reconstituição do fato, em favor do tratamento
quantitativo de elementos variados constantes de uma coleção
muito mais abrangente e inclusiva. O que forçou a ampliação
do próprio termo "documento", que agora leva em conta não
somente o escrito, mas os vestígios de qualquer tipo. Até
mesmo para que possa subsistir a ambição de uma "história
total".
o entendimento,
Será que a abundância de dados pode ser mesmo assimilada a uma "explosão", caótica e intratável? Ou será que certos procedimentos cegos, por assim dizer, relativamente ao que manipulam alcançam um grau de esgotamento tal que se faz necessária uma alteração radical de modos mais ou menos tácitos de pensar que lhes são subjacentes? Neste caso, teríamos uma crise, na pior das hipóteses, uma crise de inteligibilidade, como tantas outras registradas pela história. Estritamente quanto à abundância de dados, existem outras razões para afastar até mesmo a hipótese de uma crise.
Conforme a posição assumida, as intenções e os recursos disponíveis, uma situação pode se apresentar como algo desorganizado e ininteligível; ou, ao contrário, prenhe de vestígios e potencialmente esclarecedora. Mais achados arqueológicos geralmente reduzem - e não aumentam - a incerteza das pesquisas sobre a cultura desconhecida. A cena do crime não deve ser "arrumada"; nem se costuma, em geral, "reorganizar" os livros nas estantes por não estarem em "ordem de tamanho". Os mesmos elementos capazes de confundir podem ajudar a esclarecer. Pois não associamos, geralmente, a existência de "material abundante" com a "confusão"; nem tratamos a "escassez" de dados como uma particularidade desejável para o entendimento.
Quando dizemos que a série substituiu o fato isolado - e a categoria - na ciência moderna, queremos dizer, entre outras coisas, que celebramos a multiplicidade não somente como objeto cognoscível, mas como condição mesma do conhecimento. Note-se que não abdicamos nem do "fato" nem da "categoria", apenas reconsideramos os seus papéis nas formulações dirigidas a um mundo coerente que se dá na infinita riqueza das diferenças.
Quanto ao crescimento da massa de conhecimentos, vamos admitir que alguns procedimentos se tornaram mais simples, mais rápidos e, às vezes, mais inteligíveis. Como todos sabemos, o uso de máquinas e instrumentos reduziu a "dificuldade" e o "tempo" necessário para certas tarefas. Sabemos também que isto não conduziu necessariamente à diminuição generalizada do tempo de trabalho, nem a um melhor entendimento. O "trabalho" de antes não é o mesmo "trabalho" de hoje, as mudanças produzem suas próprias exigências. A consideração das diferenças, em dois momentos históricos, do à primeira vista simples esforço concreto de saber as horas ilustra imediatamente a imprudência da comparação.
Uma gravura de um livro de salmos de Paris, aproximadamente do ano 1220 da nossa era, que se encontra atualmente na Bibliothèque de l'Arsenal, em Paris, representa uma "noite medieval"[7] através do laborioso processo de computar a hora noturna. Com o auxílio de um astrolábio, alguém mede a inclinação de uma estrela; de uma tabela planetária árabe, outro associa a medida à posição do Sol naquele momento; uma terceira pessoa anota em um livro latino a altura da estrela e a posição do Sol, medidas que serão usadas em seguida para calcular a hora local no astrolábio.
Os inumeráveis objetos celestes que acompanham aquela estrela podem dificultar ou auxiliar a sua localização para os que meramente calculam a hora local. Têm, contudo, outro significado tanto para os compiladores das tábuas planetárias como para os que vêm no céu algo mais do que um relógio.
Podemos imaginar um mundo no qual não nos permitimos desprezar qualquer dado. Um mundo como o ideal de Gertrude, descrito abaixo. Tudo deve ser registrado, indexado, selecionado, classificado, guardado. Como alguém nos disse que a vista é inesgotável pelo discurso, nos restaria lamentar o caráter reducionista das sistematizações.
De um lado, tem-se um projeto fundamentado na ambição de esgotamento, o mais exaustivo possível, dos materiais disponíveis. Algo limitado pela necessidade de controle da incorporação de novos elementos, em particular do fortuito - exigência daquela "inteligibilidade" heterônoma -, e pela necessidade constante de reordenação do conjunto e das regras de incorporação - pelo desbordamento inevitável da multiplicidade, o que produz, indiferentemente, tanto inclusões como exclusões, insights e perplexidades.
Por outro lado, cada novo acréscimo considerado à luz das exigências da totalidade modificada e não de regras heterônomas de incorporação- indica e depende de novas inteligibilidades próprias daquele conteúdo, fazendo muitas vezes com que uma massa até então caótica e intratável de materiais encontre o seu lugar naquela totalidade.
Como se sabe, a incorporação de um elemento aparentemente estranho ou fortuito a um conjunto documental pode não só trazer respostas como a própria modificação da natureza do problema. Francis Yates, na introdução aos seus ensaios sobre Lull e Bruno [8] nos relata que escrever aqueles artigos "(...) fué la tarea más difícil que jamás he emprendido. Es posible que la dura prueba de batallar com Raimundo Lulio se refleje en cierta rigidez de estilo de los artículos". [pg.14]
Yates nos conta que não chegava a compreender o significado, no sistema de Lull, do conjunto de nove letras BCDEFGHIK (correspondentes às Dignidades ou Atributos de Deus: Bonitas, Magnitudo, Eternitas, Potestas, Sapientia, Voluntas, Virtus, Veritas, Gloria) que deveriam ser combinadas, através de círculos ou rodas concêntricas, com outro conjunto "de importancia igualmente grave", as quatro letras ABCD dispostas em diagramas (e correspondentes aos quatro elementos Aer, Ignis, Terra, Aqua). Yates se perguntava por que a obra de Lull se intitulava "Tractatus novus de astronomia". "Cómo se conectan [las Dignidades divinas] con la teoría elemental? De dónde sacaba Lulio su convicción de que esas Dignidades están directamente conectadas con los Elementos y con las estrellas - los siete planetas y los doce signos del Zodiaco -, de las cuales descienden a toda la creación? Faltaba la fuente de tales ideas." [pg.15]
Foi uma figura, de uma obra do século XII que apresenta o sistema do Universo da obra "De divisione naturae" do irlandês do século IX John Scotus Erigena, que permitiu a Francis Yates esclarecer a natureza daquelas perguntas. "Quedé fascinada cuando vi esa miniatura, que puede traducirse inmediatamente en términos lulianos. Allí están sus Dignidades como causas primordiales creadoras, inmediatamente en contacto con sus Elementos como intermediarios entre las Causas divinas y la creación."
De que adiantaria acrescentar mecanicamente cada vez mais elementos ao conjunto dos textos lulianos, sem ter em vista a compreensão da "fonte das idéias"? É somente a partir daquele entendimento que a incorporação de mais elementos deixa de aumentar a perplexidade e assume, de modo natural, o seu lugar na reconstituição um novo quadro de inteligibilidade. [9]
John Wilkins [3] propôs uma "língua
analítica" para se falar da diversidade do mundo; Lulio construiu
um sistema combinatório, isto é, um mecanismo de síntese
a partir dos elementos primordiais criadores de Scotus Erigena. Os dois
sistemas podem ser comparados com formas de representação
que dependem, a primeira de uma cópia - de uma reflexão,
na "língua analítica" - espelho da realidade -, do que se
observa no mundo; a outra de uma produção - representação
- do mundo pela máquina combinatória, isto é, por
uma "linguagem" criadora. Distinção aparentada com a que
fizemos acima a respeito de uma "leitura associativa" diante de outra "indexada",
ou àquilo que os gestaltistas pioneiros chamaram de "fatores constritivos-topográficos",
que determinam o curso dos fenômenos por restrições
externas, por oposição a "fatores dinâmicos", que dependem
do próprio desenvolvimento dos fenômenos.
a obsessão,
Já foram descritas as coleções de fotografias, de filmes, os álbuns de família, como produtos de uma certa 'obsessão arquivística'. É muito importante, certamente, reconhecer a constituição de uma identidade específica em nossa 'sociedade arquivística', como fez, por exemplo, Fausto Colombo no seu livro Os Arquivos Imperfeitos. Mas é de outros aspectos das 'obsessões' que penso ser ainda mais adequado falar, descritas no ensaio de Wolfgang Koehler "The obsessions of normal people" [10].
Uma obsessão funciona, do ponto de vista da Gestalt, como um caráter exigente que, no caso de ser extensamente compartilhado e realimentado socialmente, corresponde ao que Koehler chamou de 'obsessão característica de uma época histórica', ao descrever o 'pessimismo' contemporâneo - o 'Smog' - como um exemplo daquela classe. Há o sentimento de que existe, realmente, uma 'explosão da informação', de que somos de fato 'esmagados' pela quantidade crescente de 'conhecimentos' - como nos descreveu Guy Durandin, crescimento reforçado mesmo pelas produções que parecem prometer justamente a redução daquela complexidade. A organização da Biblioteca de Babel [11] e outros tantos empreendimentos semelhantes fazem parte do imaginário e da realidade das obsessões sociais, entre as quais se inclui a 'obsessão das pessoas normais'. É importante chamar a atenção para esse aspecto perfeitamente investigável da percepção comum sobre a 'explosão da informação', sobre a sensação de 'esmagamento', tendo em vista alternativas mais promissoras de estudo e compreensão. O que inclui indicações sobre limites das intervenções possíveis frente à persistência corrente de uma idéia, sua resistência a mudanças mesmo diante de notáveis e reconhecidas inconsistências e debilidades. A obsessão, aqui, deve ser vista como um importante fenômeno social, capaz de elucidar, antes que como doença ou erro a ser exorcizado por adequado tratamento médico ou acadêmico. Até mesmo porque evidências factuais a favor da obsessão são facilmente produzidas por ela, tão atenta a qualquer indício abonador, como desdenhosa diante do que lhe contraria, "porque deve haver também evidência real que, uma vez descoberta, venha a suportar a obsessão."[12]
Esta busca frenética por comprovação - ou, ao contrário, por contraprovas daquilo que ameaça destruir a coesão obsessiva - pode ajudar a compreender o horror ao subjacente. E o sincero reconhecimento social quanto à seriedade do empreendimento. Por exemplo,
"Gertrude odiava tudo o que fosse latente, tácito ou implícito (...). Via o pior: de fato, o seu único princípio de explicação. Assim, parecia à maior parte das pessoas uma escritora de extraordinária penetração." [13]
Certamente, são as mais diversas as contribuições para a 'explosão', isto é, para a diversidade: "(...)O poeta, o novelista, [etc.] todos acrescentam aos fatos existentes as suas novas criações. Ao se completarem, passam a existir mais fatos reais no mundo do que havia antes (...)" [Koehler, op.cit., pg.:412]
E não apenas os artistas, é claro. Todos, sem exceção, somos inventores na produção de nossa própria existência, mas é a diversidade subjacente que pode nos proteger dos excessos obsessivos. [14]
Estão, assim, incluídos entre esses novos "fatos" aquelas idéias, ou obsessões, que, por persistência própria - a praegnanz dos gestaltistas - mostram grande poder de penetração, aperfeiçoamento e uniformização. O ensaio "Russell's Mathematical Logic" de Kurt Goedel também dava às idéias matemáticas tanto direito à existência no reino dos fatos como qualquer fenômeno físico, o que, de algum modo, recorda Husserl. Idéias não são signos arbitrários, mas existências às quais devemos nos aproximar cuidadosamente para entendê-las. Visto deste modo, não há qualquer dificuldade na inclusão dos fenômenos físicos no âmbito das idealidades e, assim, de todos no reino dos fatos.
Como sabemos, é bem fácil encontrar declarações sobre "perplexidades", "explosões" ou "esmagamentos" produzidos pelo acúmulo de materiais registrados que demandam tratamento. A rubrica "sociedade da informação" é claramente um clichê. Mesmo as críticas, percebidas antigamente como tão construtivas, ao "mito da neutralidade científica" e ao "culto ao fato" se encontram hoje fora de moda, embora continuem muitas vezes desconhecidas as razões que as alimentaram. Não é surpreendente, portanto, que volta e meia surjam demandas e tentativas de reabilitação de práticas "mais rigorosas" para os discursos científicos, ou pelo menos para os candidatos a tal título. Na falta de algo melhor, volta-se aos argumentos de autoridade, ao prestígio de personagens e publicações tanto no campo da academia como no da divulgação científica. Como uma duvidosa sociologia do homem comum parece apontar para a sua irrecuperável infantilidade, mais uma vez as previsões autorizadas de desastre iminente, "explosões" ou "esmagamentos", cumprem seu papel de manter o "interesse" do leitor.
Assim, o que sustentaria argumentação tão convincente quanto abusiva sobre o "esmagamento" decorrente do "acúmulo explosivo de conhecimentos", característico da "sociedade da informação", senão uma obsessão no sentido discutido até agora?
A obsessão é a fonte da convicção que justifica o esforço contábil de um filósofo como Durandin, que reorganiza a "proliferação dos conhecimentos" de forma a exibi-la, a uma só vez, tão inegável como inapreensível. Para isso, seu discurso mimetiza a mesma proliferação que descreve, o desdobramento das cifras e das classificações, embora organizadas através de comparações que, como vimos, não resistiriam a um exame mais atento. Chega, como era de se esperar, à constatação rigorosamente quantitativa, com base em pesquisas históricas, não só da verdade da "explosão", como da impotência da racionalidade diante daquela esmagadora e exponencialmente crescente complexidade. E o faz exibindo aquelas mesmas qualidades que procura demonstrar.
Assim como não se pode derivar, tendo Darwin como modelo, certas disposições de valores a partir da "seleção natural" de fatos neutros [15], também não se pode inferir da contabilidade dos suportes as características dos conteúdos veiculados. Recapitulando, "ler" para o monge cisterciense não é o mesmo que "ler" para um homem moderno, nem mesmo para um monge. Uma leitura de referência não se confunde com inúmeras outras modalidades de leitura, nem é trivial comparar o acervo de uma biblioteca medieval com o de uma biblioteca moderna. De publicações científicas recentes podemos dizer, por exemplo, que "estão (ou não estão) defasadas", mas não teria muito sentido que nos expressássemos assim a respeito de uma coleção medieval. A mesma unificação dos conceitos de conhecimento sob a categoria de "informação organizada" só se dá através de violento expurgo das acepções originais dos termos que os representavam [16]. Há vários outros elementos omitidos nesta análise: o controle dos conteúdos e dos canais, sua apropriação, além de faltar uma discussão adequada sobre o desprezo pelo valor subjetivo dos dados naquela contabilidade dos suportes. O desprezo pode ser importante para contornar a óbvia incomensurabilidade de certos conteúdos, por exemplo. É também por causa dessa semelhança entre a tentativa de expurgo dos conteúdos na contabilidade dos suportes e a de expurgo dos valores relativamente às ciências naturais [17] que considero plenamente justificado pensar a "explosão da informação" como uma das obsessões de nossa época, algo que se cria e se sustenta alimentado, inclusive, por sua própria existência obsessiva.
Neste, e em muitos outros esforços - como, por exemplo, o de Peter Lyman já mencionado -, substitui-se o exame de um conteúdo intratável pela contabilidade dos suportes, mais uniformes, mais acessíveis e de proliferação - espera-se - mais controlável.
Nada demais, se não estivesse implícito no projeto a intenção
de subordinar a diversidade dos conteúdos àqueles procedimentos.
Como um 'Smog', a cada tentativa, reforça-se, é claro, o
pessimismo quanto à sua própria possibilidade. Acompanhada
do "esforço de controle da explosão" pelo entendimento, tem-se,
a cada vez, a constatação desalentada de sua inexorabilidade
"esmagadora". Novas tentativas são justificadas comodamente atribuindo-se
o fracasso anterior a, quem sabe, um defeito intrínseco do material
examinado.
e a vida real.
Os franceses dizem "informatizar", assim como nós, como os ingleses e os norte-americanos. Um dicionário eletrônico francês localizado em http://www.linux-france.org/prj/jargonf/I/informatiser.html , define: [Informatizar:] Implementar um plano de informatização: implantar computadores e impressoras em vários lugares, estender fios e cabos, explicar truques aos que nada compreendem, transtornar todo mundo, perder dinheiro e acabar por continuar como antes. [Informatiser:] Mettre en place un plan d'informatisation : on met des ordinateurs et des imprimantes un peu partout, on tire des fils et des câbles, on explique des trucs aux gens qui n'y comprennent rien, on vire tout le monde, on perd beaucoup d'argent et on finit par continuer comme avant.
Já para o que chamamos de "digitalizar", eles têm, preferentemente, "numerizar". No mesmo dicionário, em http://www.linux-france.org/prj/jargonf/N/numeacriser.html , lemos: [Numerizar:] Transformar um sinal analógico em sinais numéricos equivalentes do ponto de vista da informação transmitida, para que sejam manipuladas por um [computador] ordenador. Diz-se, também, digitalizar (é um abuso de linguagem), escolher para amostra. [Numériser:] Transformer un signal analogique en signaux numérique équivalents du point de vue de l'information transmise, pour qu'ils soient manipulés par ordinateur. On dit aussi digitaliser (c'est un abus de langage), échantillonner.]
A menção ao "número" tem a vantagem de indicar a mediação de um suporte universal abstrato, independentemente da evocação à oposição entre o analógico e o digital (apesar da definição francesa), entre o contínuo e o discreto, já que não se trata disso, no caso da "numerização" dos registros.
Se pensarmos na intensa e crescente atividade de uniformização dos registros pela mediação numérica (números que deverão, por sua vez, ser registrados transmitidos convertidos e reproduzidos nos mais diversos suportes e dispositivos, mas sempre através de suas representações analógicas), talvez nos possa parecer menos estranho, afinal, que se fale de uma "explosão da digitalização". Ainda assim caberia explicar o uso da expressão, já que não se trata, absolutamente, de algo "fora de controle", por mais intenso que seja o processo de normalização (numerizada) dos novos e dos antigos registros.
O mundo conheceu outras normalizações, muitas delas mais
radicais do que esta, entre as quais a universalização da
notação alfabética, da numeração posicional,
do calendário gregoriano e do dia de vinte e quatro horas. No caso
da escrita alfabética, foi possível reduzir os elementos
gráficos a um repertório mínimo, ao mesmo tempo facilmente
legível, apreensível e codificável. Mais interessante
ainda do que diagnosticar crises e explosões é observar a
obsessão contemporânea que permite discerni-las tão
claramente, e os mecanismos pelos quais vem garantindo, em grande medida,
a sua própria reprodução.
Notas e Referências Bibliográficas
[1] Durandin, Guy. "Le philosophe devant l'information". L'Univers
Philosophique. Encyclopédie Philosophique Universelle.
Paris: PUF, 1989. [p.904 ss.]
"(...)I. O crescimento do conhecimento
Para se dar uma idéia deste crescimento, vamos considerar primeiro os livros.
De fato, a Antigüidade já conhecia ricas bibliotecas. No século III antes de Cristo, Alexandria possuía duas, com um número de volumes estimado de 500.000 e 43.000, respectivamente. E a Biblioteca de Constantinopla (que foi incendiada em 477 depois de Cristo) contava com 120.000.
Mas, na Idade Média, o número de obras disponível é bastante menor. As bibliotecas dos monastérios possuem, em média, de 200 a 300 livros. E os monges cistercienses [pertencentes a Cister - abadia de Cluny, França - ordem dos cistercienses: ordem austera de frades e freiras fundada em 1098, em Cister, perto de Dijon, França, por Roberto, abade de Molesme, e baseada nas regras beneditinas] têm a obrigação de ler... ao menos um livro por ano. (O tal livro é, por outro lado, mais um apoio para a meditação do que informação, no sentido que damos hoje a isto).
Em 1920, a Biblioteca da Sorbonne contava com 1017 livros. 50 anos mais tarde, ela ainda não tinha mais do que 1720. Mas, em 1984, já possui 3 milhões; e o seu crescimento anual necessita de 500 metros a um kilômetro de novas prateleiras.
A Biblioteca Nacional [França] conta com 12 milhões de livros impressos.
A produção de livros, oscila, na França, de 11.500 a 15.000 por ano; quanto à produção mundial, ela é de cerca de 500.000 volumes por ano.
As cifras precedentes dizem respeito às bibliotecas públicas. O que dizer das bibliotecas privadas?
Algumas se destacam da maioria. Assim, Pic de la Mirandole (1463 - 1494) tinha 1697 livros; e John Locke (1632 - 1704) tinha 3197.
Mas estas são exceções. A obra de Albert Labarre sobre "Le livre dans la vie amiénoise du XVIe siècle" [O Livro na Vida de Amiens do Século XVI] permite conhecer a composição das bibliotecas de uma população qualquer. Aquele autor estudou, com efeito, os inventários de falecidos, conservados nos arquivos comunais da cidade de Amiens, de 1503 a 1576. Foram revelados 880 inventários contendo livros. Entre os resultados numerosos e detalhados que ele apresenta, assinalaremos os seguintes:
- quanto aos 880 inventários, um grande número, a saber 293, contém apenas um livro;
- o número médio de livros por inventário (poderiamos dizer, grosso modo, por possuidor) é igual a 13,5;
- o máximo é possuído por Jean Forestier, Advogado do Rei: 240 livros.
No que diz respeito às profissões, se constata que são os togados que possuem mais livros: 37,3 por pessoa; seguidos pelos médicos: 33,3; depois pelos da igreja: 22,9; (contudo uma boa quarta parte daqueles não parece possuir qualquer livro); em seguida, a nobreza: 19,4; e, enfim, os membros das outras profissões (comerciantes e atividades diversas).
Quanto ao conteúdo dos livros, a metade deles é de natureza religiosa.
Assim, um homem do século XVI ao possuir cerca de 13 livros, poderia, sem dificuldade, ao que parece, tê-los lido todos durante a sua vida. E mesmo o Advogado do Rei, que possuia 240, teria podido lê-los. Suponhamos, por exemplo, que ele lesse um livro por semana, ou seja, 52 livros por ano, ele teria gasto menos de 5 anos para lê-los todos. E John Locke, que viveu 72 anos, teria podido, a rigor, ler todos os seus livros (teria gasto para isso 3.197/52 = 61,4 anos de leitura).
Mas, o autor deste estudo possui cerca de 6.000 volumes e freqüenta, além disso, bibliotecas públicas; sua vida não seria suficiente para tanto.
Aos livros, juntam-se as revistas e os jornais. O número de páginas destes cresceu bastante: a "Gazette" de Renaudot, no mês de novembro de 1633 se compunha de 4 páginas de cerca de 2080 carateres, ao todo, 8320 carateres. Um número corrente do "Le Monde", em 1985, conta com umas 20 páginas de informação (sem incluir a publicidade) com uma média de 31.000 carateres cada, ou seja, 620.000 carateres, o que quer dizer que a quantidade de informação proposta ao leitor do "Le Monde" é cerca de 74 vezes maior do que aquela que se oferecia ao da "Gazette". E, ainda, os jornais não publicam senão uma pequena parte do que as agências de notícias fornecem. A "Agence France Presse" difunde 600.000 palavras por dia [~1985], ou seja, o equivalente a 80 páginas de um jornal de formato grande. Termina-se por lamentar não viver nos séculos XVI ou XVII. Como era fácil para um homem estar informado, então!
Aos livros e aos periódicos se juntam, nos nossos dias, as emissões radiofônicas e televisivas. Atualmente, 80% dos franceses vêem televisão durante mais de três horas por dia.
A massa de informações difundida por esses diferentes meios é tão grande que se tornou necessário, para controlá-la, criar uma nova disciplina: um estudo das comunicações em si mesmas, que constitui um tipo de metacomunicação. Na França, por exemplo, existem hoje [~1985] 7 periódicos importantes consagrados ao estudo da imprensa, do rádio, da televisão e da publicidade (isto sem contar os semanários especializados na publicação dos programas de rádio e televisão). E, vários jornais ou periódicos contêm, agora, uma rubrica "comunicação".
Esta profusão de informações, ou pelo menos de estímulos, pode ser considerada como um bem, já que resulta de um crescimento fantástico do próprio saber. Mas ela é, ao mesmo tempo, esmagadora, uma vez que é evidente que nenhum de nós pode pretender dominar o conjunto dos conhecimentos disponíveis.
E, diante desta abundância, o filósofo pode ter a tentação de retirar-se para meditar. "Depois de haver adquirido certas informações sobre um assunto dado, diz Michel Serres, é necessário pensar sozinho, esquecer aquela informação prévia. Sou agora demasiadamente velho para adotar a mesma atitude diante do saber; dito de outro modo, eu não leio mais livros..." ("Le Monde aujourd'hui", 12 - 13 de maio de 1985).
Mas, como escolher as informações essenciais? As ciências evoluem tão depressa que é difícil saber em que momento se pode passar da informação à meditação (...)."
[Tradução e colchetes meus].
[2] Lyman, Peter. "How much information?", <http://www.sims.berkeley.edu/research/projects/how-much-info/internet.html>
[3] Como se sabe, taxonomistas e construtores de sistemas são
numerosos e já existem há muito tempo. A obra de Raimundo
Lulio [1232-~1316] servia principalmente, segundo dizia, à conversão
racional dos infiéis, enquanto que a de John Wilkins [1614-1672]
, como outros antes e depois dele, tinha em vista os benefícios
de uma língua universal das coisas, com base em "caracteres reais",
por oposição aos "caracteres nominais" dos sons ou das letras.
Ver, por exemplo, Paolo Rossi, Clavis Universalis, Bologna: Il Mulino,
2000, especialmente o apêndice IX, pg. 321-324, "D'Alembert e i caratteri
reali", que relaciona Wilkins, Francis Bacon, George Dalgarno e Francis
Lodowick a Leibniz e ao próprio d'Alembert.
Ver também Borges, Jorge Luis. "El Idioma Analítico de
John Wilkins", in Otras Inquisiciones [pg 102-106], Madrid: Alianza/Emece,
1981 (orig.1952).
[4] Baêta Neves, Luiz Felipe. "Pequenas notas e comentário
sobre a idéia de catálogo, a propósito de um catálogo
relativo ao grande autor e fazedor de livros padre Antônio Vieira",
in
Padre Antônio Vieira: catálogo do acervo da Biblioteca Nacional,
Rio de Janeiro: EdUERJ, Biblioteca Nacional, 1999. Pg. 11-16.
[5] Walter Benjamin, nas "Questões Introdutórias da Crítica
do Conhecimento", in Origem do Drama Barroco Alemão, São
Paulo: Brasiliense, 1984, fala de "salvação do fenômeno
pela idéia". Salvação seletiva mas nem por isso arbitrária:
"(...)
os fenômenos não entram integralmente no reino das idéias
em sua existência bruta, empírica, e parcialmente ilusória,
mas apenas em seus elementos, que se salvam. Eles são depurados
de sua falsa unidade, para que possam participar, divididos, da unidade
autêntica da verdade. Nessa divisão, os fenômenos se
subordinam aos conceitos. São eles que dissolvem as coisas em seus
elementos constitutivos. As distinções conceituais só
podem escapar à suspeita de serem uma sofística destrutiva
se visarem à salvação dos fenômenos nas idéias:
o ta jainomena swxein
[salvar os fenômenos] de Platão. Graças a seu papel
mediador, os conceitos permitem aos fenômenos participarem do Ser
das idéias. Esse mesmo papel mediador torna-os aptos para a outra
tarefa da filosofia, igualmente primordial: a representação
das idéias. A redenção dos fenômenos por meio
das idéias se efetua ao mesmo tempo que a representação
das idéias por meio da empiria. Pois elas não se representam
em si mesmas, mas unicamente através de um ordenamento de elementos
materiais no conceito, de uma configuração desses elementos.
(...) As idéias se relacionam com as coisas como as constelações
com as estrelas. (...) É função dos conceitos agrupar
os fenômenos, e a divisão que neles se opera graças
à inteligência, com a sua capacidade de estabelecer distinções,
é tanto mais significativa quanto tal divisão consegue de
um golpe dois resultados: salvar os fenômenos e representar as idéias."
[pg.55-57]
[6] Le Goff, Jacques. "Documento/Monumento", in Enciclopédia
Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1997, Vol I, pg.95-106]
"(...)Mais ainda do que estes múltiplos modos de abordar um documento, para que ele possa contribuir para uma história total, importa não isolar os documentos do conjunto de monumentos de que fazem parte. Sem subestimar o texto que exprime a superioridade, não do seu testemunho, mas do ambiente que o produziu, monopolizando um instrumento cultural de grande porte, o medievalista deve recorrer ao documento arqueológico, sobretudo àquele que faz parte do método estratográfico [relativo a camadas geológicas], ao documento iconográfico [ver Yates, sobre Lull], às provas que fornecem métodos avançados como a história ecológica que faz apelo à fenologia [estudo da relação entre ciclos e processos biológicos e climáticos], à dendrologia [estudo das árvores], à palinologia [estudo dos grãos de pólen e esporos]: tudo o que permite a descoberta de fenômenos em situação (a semântica histórica, a cartografia, a fotografia aérea, a foto-interpretação) é particularmente útil. O novo documento, alargado para além dos textos tradicionais, transformado - sempre que a história quantitativa é possível e pertinente - em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. De onde a urgência de elaborar uma nova erudição capaz de transferir este documento/monumento do campo da memória para o da ciência histórica." [pg.104] [colchetes meus]
Aqui também, por assim dizer, o acontecimento singular, "transformado
em dado", cede lugar à série. A questão remete também
para a diferença entre o nomotético e o idiográfico,
e entre o conceito funcional e o conceito substancial. [Ver Mnemotécnica
e Tecnovidade, <http://www.dgz.org.br/dez99/Art_05.htm>
]
[7] Borst, Arno. The Ordering of Time, Chicago: UCP, 1993.
[8] Yates, Francis A. Lulio y Bruno, Ensayos Reunidos, Volume
I, Fondo de Cultura Económica: México, 1996 (orig. 1982)
[9] Arthur Koestler, Kepler. Ed. Salvat, Barcelona:1985. Pg.85-86.
"Al
final de ese asombroso capítulo [dieciséis de 'La nueva Astronomía'],
Kepler parece haber conseguido triunfalmente su objetivo. Como resultado
de sus más de setenta tanteos obtuvo para el radio de la órbita
[de Marte] y para los tres puntos centrales valores que daban, con un permisible
error de menos de 2', las posiciones correctas de Marte en las diez oposiciones
registradas por Tycho [Brahe]. El invencible Marte parecía haber
sido finalmente conquistado. Kepler proclamó su victoria com una
inusitada modestia: 'Verás ahora, diligente lector, que la hipótesis
basada en este método no solamente satisface las cuatro posiciones
en las cuales se basa, sino que también representa correctamente,
dentro de un margen de dos minutos, todas las demás observaciones...'
Después siguen tres páginas de tablas para probar lo correcto de su afirmación; y luego, sin otra transición, el siguiente capítulo empieza con estas palabras: 'Quién hubiera pensado que fuera posible? Esta hipótesis, que tan exactamente concuerda con las oposiciones observadas, es sin embargo falsa...'
(...)En los dos siguientes capítulos Kepler explica, con gran cuidado y un deleite casi masoquista, cómo descubrió que la hipótesis era falsa y por qué debía ser rechazada. A fin de verificarla con una nueva prueba, seleccionó dos piezas especialmente raras del tesoro de observaciones de Tycho, y no encajaban! Y cuando intentó ajustar su modelo a ellas, fue aún peor: las posiciones observadas de Marte diferían de las que su teoría exigía en más de ocho minutos de arco.
Era una catástrofe. Tolomeo, e incluso Copérnico, podían permitirse despreciar una diferencia de ocho minutos, debido a que sus observaciones eran exactas tan sólo con un margen de diez minutos. 'Pero [concluye el capítulo diecinueve] nosotros, que por la divina bondad hemos dispuesto de un observador tan exacto como Tycho Brahe, estamos obligados a reconocer este divino don y utilizarlo... En consecuencia, voy a tener que seguir el camino hacia esa meta según mis propias ideas. Porque si creyera que podía ignorar esos ocho minutos, hubiera elaborado mi hipótesis de acuerdo com ello. Pero, puesto que no me resulta permisible ignorarlos, esos ocho minutos indican el camino hacia una completa reforma de la astronomía: se han convertido en el material de base para construir una gran parte de ese trabajo...' (...)
El libro segundo de la Nueva Astronomía se cierra com las
palabras: 'Y así, el edificio que habíamos erigido sobre
los cimientos de las observaciones de Tycho lo hemos destruido de nuevo...
Este fue nuestro castigo por haber seguido algunos plausibles, pero en
realidad falsos, axiomas de los grandes hombres del pasado.' [grifos meus]
[10] Koehler, Wolfgang. "The obsessions of normal people", in The
Selected Papers of Wolfgang Koehler, New York: Liveright, 1971. [pg.410-III]
[11] Borges, Jorge Luis. "La Biblioteca de Babel", in Ficciones,
1941.
[12]Koehler, W. op. cit., pg. 411:"(...)for there may also
be actual evidence which, once it is discovered, will support the obsession."
[13] Gertrude hated for anything to be latent or tacit or implicit
(...). She saw the worst: it was, indeed, her only principle of explanation.
Consequently, she seemed to most people a writer of extraordinary penetration".
(apud Koehler, W. op. cit., pg. 405), Randall Jarrell, Pictures
from an Institution, A.Knopf: 1954.
[14] Ver, por exemplo, Certeau, Michel de.A Invenção
do Cotidiano: Artes de Fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
[15] Ver, por exemplo, Koehler, W., op. cit., pg.:360.
[16] Ver, por exemplo, Snell, Bruno, A Descoberta do Espírito.
Lisboa: Edições 70, 1992 (Orig. 1975).
[17] Ver, por exemplo, Koehler, W. , op. cit., pg.:356-375.
Sobre o autor / About the Author:
Luiz Carlos Brito Paternostro
patern@alternex.com.br
Dr. [Ciência da Informação], UFRJ/ECO, IBICT/CNPq,
1998
Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ)
Endereço residencial/ Personal address:
Av. N. S. Copacabana, 1049/601 - 22060-000
Rio de Janeiro, RJ, Brasil